A HUMANIZAÇÃO DO PARTO (QUE NÃO É O NOSSO!)

Por Carla Cavallieri

O Nana iniciará hoje uma série de posts informativos para que nossas seguidoras e outras mães tenham acesso a informações vitais para a sua gestação, parto e puerpério. O primeiro post é sobre Humanização de Parto. E o porque que não chega até nós, mulheres negras essa famosa humanização.

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O processo de humanização de parto, tem seu início em 2002 ( eu tive Àgatha em 2006, nunca soube e nem vi), no entanto no ano de 2000 já havia sido publicado uma portaria  Portaria/GM n.o 569, de 1/6/2000, que traz em sua segunda linha o seguinte texto:

“Considerando que o acesso das gestantes e recém-nascidos a atendimento digno e de qualidade no decorrer da gestação, parto, puerpério e período neonatal são direitos inalienáveis da cidadania;…”

E, em que consiste esta humanização? Segundo as Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, de 2017, o documento atual, este projeto foi fundamentado á partir de dois objetivos principais:

  1. O primeiro diz respeito à convicção de que é dever das unidades de saúde receber com dignidade a mulher, seus familiares e o recém nascido. Isto requer atitude ética e solidária por parte dos profissionais de saúde e a organização da instituição de modo a criar um ambiente acolhedor e a instituir rotinas hospitalares que rompam com o tradicional isolamento imposto à mulher;
  2. O outro se refere à adoção de medidas e procedimentos sabidamente benéficos para o acompanhamento do parto e do nascimento, evitando práticas intervencionistas desnecessárias, que embora tradicionalmente realizadas não beneficiam a mulher nem o recém nascido, e que com freqüência acarretam maiores riscos para ambos.

As prioridades deste plano são:

  • concentrar esforços no sentido de reduzir as altas taxas de morbimortalidade materna, peri e neonatal registradas no país
  • adotar medidas que assegurem a melhoria do acesso, da cobertura e da qualidade do acompanhamento pré-natal, da assistência ao parto, puerpério e neonatal;
  • ampliar as ações já adotadas pelo Ministério da Saúde na área de atenção à gestante, como os investimentos nas redes estaduais de assistência à gestação de alto risco, o incremento do custeio de procedimentos específicos, e outras ações como o Maternidade Segura, o Projeto de Capacitação de Parteiras Tradicionais, além da destinação de recursos para treinamento e capacitação de profissionais diretamente ligados a esta área de atenção, e a realização de investimentos nas unidades hospitalares integrantes destas redes.

E na sua estrutura,  estão incluso os seguintes direitos á gestante:

  • toda gestante tem direito ao acesso a atendimento digno e de qualidade no decorrer da gestação, parto e puerpério;
  • toda gestante tem direito de saber e ter assegurado o acesso à maternidade em que será atendida no momento do parto;
  • toda gestante tem direito à assistência ao parto e ao puerpério e que esta seja realizada de forma humanizada e segura, de acordo com os princípios gerais e condições estabelecidas na prática médica; todo recém-nascido tem direito à assistência neonatal de forma humanizada e segura.

Daí ache o erro, sobre a elaboração deste projeto, foi elaborada uma comissão que é uma piada e vocês me dirão o porque. Até porque nós precisamos discutir este tema com afinco, para que sim, chegue até nós.

Falamos aqui de uma humanização branca, e vamos muito mais além, no artigo de Maria do Carmo, A cor da dor: iniquidades raciais na atenção pré-natal e ao parto no Brasil. Nos  traz dados atualizados sobre o racismo esmagador da Rede SUS.   Maria do Carmo vai falar do Inquérito pedido pela Rede SUS que se chama Nascer No Brasil, que é uma pesquisa de amplitude nacional sobre gestações, pré-natais, parto e puerpério, ou seja, todas as demandas que permeiam a maternidade. È uma pesquisa totalmente minuciosa, aqui destacarei o resultado:

Todas as características sociodemográficas analisadas e utilizadas para o controle no pareamento pelo escore de propensão se associaram à raça/cor. Em comparação às mulheres brancas, as mulheres pardas e pretas se concentram mais nas regiões Norte e Nordeste, assim como nas com pagamento público do parto, nas adolescentes, nas menos escolarizadas, nas pertencentes às classes econômicas D e E, e nas com três ou mais partos anteriores (Tabela 1). A análise comparativa de puérperas pretas vs. brancas gerou uma subamostra de 6.689 mulheres, sendo 1.840 pretas e 4.849 brancas após o pareamento pelo escore de propensão. As puérperas de cor preta possuíram maior risco de terem um pré-natal inadequado (OR = 1,62; IC95%: 1,38-1,91), falta de vinculação à maternidade (OR = 1,23; IC95%: 1,10-1,3 7), ausência de acompanhante (OR = 1,67; IC95%: 1,42-1,97) e peregrinação para o parto (OR = 1,33; IC95%: 1,15-1,54). As pretas também receberam menos orientação durante o pré-natal sobre o início do trabalho de parto e sobre possíveis complicações na gravidez. Apesar de terem menor chance para uma cesariana e de intervenções dolorosas no parto vaginal, como episiotomia e uso de ocitocina, em comparação às brancas, as mulheres pretas receberam menos anestesia local quando a episiotomia foi realizada (OR = 1,49; IC95%: 1,06-2,08). A chance de nascimento pós-termo, em relação ao nascimento termo completo (39-41 semanas), foi maior nas mulheres pretas que nas brancas (Tabela 2). A comparação entre puérperas pardas e brancas resultou numa subamostra de 13.318 mulheres, das quais 6.659 eram pardas e 6.659 brancas. Os resultados indicaram maior risco de as puérperas pardas terem pré-natal inadequado (OR = 1,24; IC95%: 1,12-1,36) e ausência de acompanhante (OR = 1,41; IC95%: 1,27-1,57). Foi menor o risco para uma cesariana e para realização de episiotomia e uso de ocitocina no parto vaginal. As puérperas pardas também apresentaram maior chance de nascimento pós-termo em relação ao nascimento termo completo (39-41 semanas) em comparação às mulheres brancas (Tabela 3). Na comparação entre pretas e pardas, a subamostra foi de 9.006 mulheres, sendo 1.804 pretas e 7.202 pardas. A inadequação no pré-natal, a não vinculação à maternidade e a não orientação durante o pré-natal sobre o início do trabalho de parto foram mais frequentemente observadas nas puérperas pretas. Não foram encontradas diferenças significantes para os demais desfechos estudados (Tabela 4).

LEAL, Maria do Carmo et al. A cor da dor: iniquidades raciais na atenção pré-natal e ao parto no Brasil. Cad. Saúde Pública [online]. 2017, vol.33, suppl.1.pag.05

No Caderno  Humaniza SUS Vol 4 – Humanização do Parto e do Nascimento, vai trazer uma questão bastante pertencente a este tema que é o Modelo Técnicomédico ou Biomédico que consiste  na identificação do corpo como uma máquina e o paciente como um objeto de estudo, um ser patológico e não enxerga a integração do corpo com a mente, o corpo como um organismo e que o paciente é um ser relacional.

Portanto, no contexto geral, humanizar é enxergar o paciente como um ser relacional, e não um objeto de estudo, olhando assim, é tão simples… Mas não, quando se fala de uma sociedade estruturada em cima de uma teoria racial, branca, racista, misógina e sexista.

Salienta também a não atualização das Instituições de Ensino, que formam estes médicos, mas o Brasil é racistão né mores, portanto, estas instituição não irão formar “doutores ou doutoras” diferentes. È um ponto a se pensar não?

Bom, e ainda ouço que maternidade não tem cor né? Melhor ler isto, do quer ser cega meu povo. A verdade é que nos matam, a todo tempo, e á partir destes resultados podemos nos armar de medidas, como a informação. Eu vejo fotos lindas no instagram, vejo stories lotados e pouca preocupação com as crias pretas que virão ao mundo.  Iremos realizar posts informativos e simples para que esta informação chegue em todas, eu tenho fé. Não dá pra postar fotinho linda e ficar de braços cruzados. O Brasil tem cor, e ela é branca e se nós não cuidarmos de nós será difícil sobreviver . Então irmãs, não tenha preguiça e não naturalize, muito menos bata palma pra um modelo de maternidade que não nos pertence, é adequação, adaptação, é ação.

Ah! Segue o link do início de uma biblioteca materna, com alguns textos e materiais importantes para se ler. Quem quiser contribuir é só me enviar o material por e-mail.

Um segunda maravilhosa!

Carla Cavallieri.

 

Bibliografia:

LEAL, Maria do Carmo et al. A cor da dor: iniquidades raciais na atenção pré-natal e ao parto no Brasil. Cad. Saúde Pública [online]. 2017, vol.33, suppl.1, e00078816.  Epub July 24, 2017. ISSN 1678-4464.  http://dx.doi.org/10.1590/0102-311×00078816.

http://www6.ensp.fiocruz.br/nascerbrasil/

http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/diretrizes_nacionais_assistencia_parto_normal.pdf

http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/diretrizes_nacionais_assistencia_parto_normal.pdf

http://www.redehumanizasus.net/sites/default/files/caderno_humanizasus_v4_humanizacao_parto.pdf

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