Primeira Lua

Por Carla Cavallieri

Sobre as águas e lua cheia…
        A água, elemento feminino, passivo, é mantenedora da vida e circula em toda a natureza sob forma de chuva, de seiva, de leite, sangue. Possui o poder de tornar sagrado o que toca e de estabelecer a harmonia. Como todo ser vivente procede das águas, os banhos favorecem os renascimentos rituais e propiciam uma nova circulação das forças por multiplicarem o potencial de vida. Transparentes, profundas, fecundas, correntes ou estancadas, doces ou salgadas, tempestuosas ou calmas,atingem distintos objetivos rituais. As águas superiores, águas das chuvas e do sereno, descem sobre a terra, enquanto as águas inferiores, dos rios, dos lagos, dos mares ascendem através da evaporação. Em movimento contínuo e ininterrupto, sem lutar, as águas rompem o que é duro e resistente.¹
          A lua cheia rege os líquidos, responsáveis pela maior quantidade de seiva nas plantas, mudanças nos mares e inquietações pessoais, na verdade das reações pessoais, e se rege os líquidos rege também nossa menstruação, nossa potencialidade, nossa extravasão.
¹Ìyámi: Símbolo Ancestral Feminino no Brasil. Vanda Alves Torres de Azevedo.

 

Há várias formas de se acompanhar uma gravidez, cada mulher possui sua maneira, dentro de seu clã, da sua família sanguínea ou não, o período da gestação é contado de uma forma, respeito cada um pois cada mulher comanda sua família de acordo com seus costumes, sua ancestralidade, por mais que este termo mude de nome em cada grupo. Na minha família, que é prioritariamente feminina, eu fui criada por mulheres e mais pra frente, iremos falar sobre este assunto mais profundamente, mas as mulheres da minha família contam a gestação por lua cheia, e na verdade até hoje, eu fico meio confusa com estas semanas, é a minha quarta gestação e sempre erro na contagem, não sei se é porque sou de humanas, e o povo de humanas não possui uma boa noção de matemática rs, dizem tá? Não afirmo nada kkkkk.

Então, meus relatos serão contados por luas, na verdade, lua cheia, que é o que sempre funcionou para mim até hoje.

Meninas, estes relatos são práticos, verdadeiros e permissivos. Porquê permissivos? Porque eu me permiti falar sobre a minha jornada, sobre as minhas quedas, levantes conscientes de todo caminho que já trilhei até hoje. Uma jornada física e espiritual porque gerar é um estado de Deus para mulher negra e há muito mais do que mudanças no nosso corpo, há uma ascendência e você sabe, lá no fundo que é isto mesmo. Você sente, só não deixa expandir…

Talvez por um aborrecimento, talvez porque você não queira estar grávida, talvez por você estar só neste processo, e muito mais talvez porque você não tenha tempo de pensar nisto. È, tempo, coisa rara para nós, que estamos na frente de nossas famílias, á margem da periferia, em um abrigo, ou presa dentro do seu próprio lar, se é que se pode chamar de lar… Irmãs, eu não lhe culpo por nada, só vem se descobrir comigo porque daí eu também sei que não estarei sozinha.

 

– Akillah!

E, é assim que uma mãe de três inicia este relato, chamando a atenção da agora então, a filha do meio.

Dia 21 de maio foi minha última menstruação, que durou por sete dias, o que me assustou muito, já que eu ficava no máximo três dias menstruada, com um ciclo certeiro de 25 dias, sangrar por sete dias, era meu útero sinalizando que poderia ter acontecido algo, ou não, afinal, nossos ciclos se alteram sempre. Então, deixei o meu corpo falar, observei os sinais, meus fluídos ( mucos), cheiros, gostos e cores para me entender…

Sobre muco cervical:…
O muco cervical é um fluido natural e saudável produzido pelas células mucossecretoras do colo do útero.  Ele possui duas maiores funções na ajuda da manutenção da nossa saúde vaginal, a primeira é que ele impede as bactérias que estão alojadas ali na região íntima da mulher consigam entrar no útero, e a outra  é ajudar ao espermatozóide chegar até o útero no período fértil. Durante seu ciclo o muco também segue seu ciclo e vai mudando suas cores, texturas, cores e quantidades.
Após a menstruação, o estrogênio aumenta a produção de muco cervical, no início o seu aspecto é mais branco e seco e meio grudento, subindo os níveis de estrogênio,  o muco vai ficando mais transparente, elástico e sua consistência é idêntica ao de uma clara de ovo aguada e seu gosto é mais adocicado. Quanto mais próximo à ovulação, mais abundante, líquido e fértil é o muco.
Fontes: Mandala Lunar e Tua Saúde

 

Cada vez mais angustiada e preocupada, não posso negar, afinal de contas, seria o quarto filho (a) , acho que no meu caso é filha, já que até agora eu não tive um menino, tudo é uma luta intensa, e nós mulheres negras sabemos qual é o medo que nos assombra, a morte. Minha mãe se foi assim, aos 28 anos ( Minha mãe teve duas gestações, duas gestações complicadas, no meu parto, ela foi amarrada na maca e no da minha irmã deixaram um fio de gaze dentro dela, o que levou a uma infecção generalizada, resultado foi uma mulher negra que se vai aos 28 anos de idade deixando duas filhas).

Não podemos negar, que por mais que saibamos que a vida pode pulsar dentro de nós, o medo de ser violentada verbalmente ou com atitudes, ou a nossa morte até mesmo do nosso bebê reflete em praticamente todas as mulheres negras que engravidam até hoje. Somos as que mais morremos em partos e puerpério, o racismo está aí todos os dias e nos corta a carne dolorosamente, não é mascarado para ninguém.

No meu caso, além de tudo isto, ainda perpetua uma batalha espiritual intensa, aqui cabe outra história… Somos cheias de histórias e vivências, que nos fazem, nos constroem e reconstroem a todo momento, precisamos valorizar nossas histórias de vitórias principalmente. Aqui entra a história daquelas pessoas que não suportam assistir o seguir da vida das pessoas, que temos aos montes, e que tentam barbaridades para tentar atrapalhar este caminhar. Eu, uma vez li, em um dos texto da Ronilda Ribeiro, Caráter ² que quem segue a filosofia iorubá, tem dois caminho a seguir, o do bem, o bem anula qualquer ação má, a magia faz parte da nossa vida, ela está em tudo, acreditamos nas forças da natureza e somos regidas por elas, nossos deuses. E o mal, lembrando que “Seu caráter proferirá sua sentença.” Já sabemos…né?

Toda vez que uma mulher negra engravida, ela está em estado único, potencializador,é vista como próprio deus. Bem como ter muitos filhos é sinônimo de prosperidade. Aí entra outro ponto primordial pra mim … Minha visão branca sobre maternidade. Como eu realmente me enxerguei na descoberta desta gestação… Eu, hoje, já me perdoei por isto, e pedi perdão ao meu filho(a) também, por não compreender o real sentido da maternidade para nós, mulheres negras. As ideias ocidentais já estão tão arraigadas em nosso ambiente, que é um trabalho contínuo, diário descolonizar até mesmo suas reais ideias e leituras.

Minha rotina, seguia a mesma, levar Akillah na escola, cuidar do Nana, da casa, da minha espiritualidade, ler algo, e nesta semana estou lendo No Colo das Iabás, de Vania Vasconcelos, recomendo imensamente a leitura, pois trata se de uma análise principalmente do papel materno na literatura de escritoras negras… o restante vocês leiam, só sei dizer, que vale imensamente a pena.

Neste intervalo, fiz dois testes de farmácia, já que eu já chegava em quase 21 de julho e nada da menstruação descer. Ambos os testes deram negativos, e eu juro que eu não sei se ficava triste ou feliz, nestas horas, é tudo muito confuso, você não raciocina direito, principalmente porque a rotina da casa não lhe espera, ela continua e você sente a necessidade de dar conta, não que precise, mas você acha que precisa…

E segui, preocupada, mas segui…. A cabeça girava de várias formas diferentes, uma foi de como eu perdi a minha mãe, minha mãe faleceu aos 28 anos decorrente de uma negligência obstétrica, no parto da minha irmã. Foi deixado dentro dela um fio de gaze que ela só descobriu quase trẽs anos depois, foi quando a abriram e não restava mais nada ou quase nada dentro dela. Mulher negra da área de saúde, enfermeira e instrumentista, mãe solo de duas meninas, eu com 10 anos e minha irmã, com 3, na época…  Samuel ali, do meu lado o tempo todo, encorajando e me dando forças, tentando diminuir meus medos momentâneos.

Foi quando eu e Samuel decidimos realizar o terceiro teste de gravidez, que compramos a noite e iríamos realizar no primeiro xixi do outro dia.

O dia vai chegando ao fim, e as meninas se agrupam na minha cama para dormir, pois amanhã é dia de escola, estávamos assistindo “Os Seus, os Meus e os Nossos” quando Àgatha diz que queria ter mais um irmão, eu olho super assustada pra ela e continuo a assistir o filme.

Pela manhã, na verdade madrugada, às 5 eu levanto para ir ao banheiro e aproveito para fazer o exame, e adivinha?  O maravilhoso dois tracinhos estão ali, bem na minha frente. Juro que eu pirei, acordei o Samuel na hora, que a reação fora pular da cama e me abraçar. Ainda atônita,desesperada não sei se por susto ou outra coisa…  acordei as meninas para iniciarem o dia, e a Aisha vai fazer o xixi de lei pela manhã e vem, ainda meio desacordada e diz : – Mãe! Te amo!

Com os olhos fazendo esforço para permanecerem abertos, aquela reação dela acalentou meu coração e me deu forças, Àgatha chorou, eu chorei, Akillah chorou e Samuel me olhou tipo: – Estamos aqui!  Ali, eu pude perceber e sentir um clã, feliz pela chegada de mais um Sol em nossas vidas.

A língua e a lógica banto-congo. sugerem que nossos ancestrais angolanos acreditavam que a pessoa é uma energia, espírito ou poder. Ser humano, na visão banto-congo, é ser uma “pessoa” que é um sol vivo, possuindo um espírito (essência) cognoscente e cognoscível por meio do qual se tem uma relação duradoura com o universo total, perceptível e ponderável. Para os banto-congo, o nascimento de uma criança é percebido como a ascensão de um “sol vivo” ao mundo superior (Fu-Kiau,1991, p. 8). A pessoa é ao mesmo tempo o recipiente e o instrumento da energia e dos relacionamentos divinos. É a essência espiritual da pessoa que a torna humana. como Ngolo (energia, espírito ou poder), a pessoa é um fenômeno de “veneração perpétua.” p.282
SAKHU SHETIZ– Retomando e Reapropriando um Foco Psicológico Afrocentrado.
Wade W. Nobles
Imagem: https://unsplash.com/photos/LUqrgye0J2M

One Comment

  1. Carla e demais irmãs! Q alegria descobrir vocês. Meu nome é Jussara Assis, sou mãe de Lucas (15) e Felipe (05), mulher negra, assistente social, casada com Cícero e .oradora da zona oeste do Rio de Janeiro. Minha vidavpolitica e acadêmica e voltada aos direitos sociais das mulheres negras brasileiras. Minha luta e missão refere-se ao enfrentamento a violência obstétrica contra mulheres negras. Como profissional da área da saúde e mulher q sofreu violência obstétrica me coletivizo com as ideias, escritos e vivências de vocês. Obrigada.

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