Posts de Nana - Maternidade Preta

A maternidade preta vivenciada, questionada e relatada por mães negras . Saúde, comportamento, relações sociais, ou seja, tudo que nos une de uma forma clara e afetiva.

Primeira Lua

Por Carla Cavallieri

Sobre as águas e lua cheia…
        A água, elemento feminino, passivo, é mantenedora da vida e circula em toda a natureza sob forma de chuva, de seiva, de leite, sangue. Possui o poder de tornar sagrado o que toca e de estabelecer a harmonia. Como todo ser vivente procede das águas, os banhos favorecem os renascimentos rituais e propiciam uma nova circulação das forças por multiplicarem o potencial de vida. Transparentes, profundas, fecundas, correntes ou estancadas, doces ou salgadas, tempestuosas ou calmas,atingem distintos objetivos rituais. As águas superiores, águas das chuvas e do sereno, descem sobre a terra, enquanto as águas inferiores, dos rios, dos lagos, dos mares ascendem através da evaporação. Em movimento contínuo e ininterrupto, sem lutar, as águas rompem o que é duro e resistente.¹
          A lua cheia rege os líquidos, responsáveis pela maior quantidade de seiva nas plantas, mudanças nos mares e inquietações pessoais, na verdade das reações pessoais, e se rege os líquidos rege também nossa menstruação, nossa potencialidade, nossa extravasão.
¹Ìyámi: Símbolo Ancestral Feminino no Brasil. Vanda Alves Torres de Azevedo.

 

Há várias formas de se acompanhar uma gravidez, cada mulher possui sua maneira, dentro de seu clã, da sua família sanguínea ou não, o período da gestação é contado de uma forma, respeito cada um pois cada mulher comanda sua família de acordo com seus costumes, sua ancestralidade, por mais que este termo mude de nome em cada grupo. Na minha família, que é prioritariamente feminina, eu fui criada por mulheres e mais pra frente, iremos falar sobre este assunto mais profundamente, mas as mulheres da minha família contam a gestação por lua cheia, e na verdade até hoje, eu fico meio confusa com estas semanas, é a minha quarta gestação e sempre erro na contagem, não sei se é porque sou de humanas, e o povo de humanas não possui uma boa noção de matemática rs, dizem tá? Não afirmo nada kkkkk.

Então, meus relatos serão contados por luas, na verdade, lua cheia, que é o que sempre funcionou para mim até hoje.

Meninas, estes relatos são práticos, verdadeiros e permissivos. Porquê permissivos? Porque eu me permiti falar sobre a minha jornada, sobre as minhas quedas, levantes conscientes de todo caminho que já trilhei até hoje. Uma jornada física e espiritual porque gerar é um estado de Deus para mulher negra e há muito mais do que mudanças no nosso corpo, há uma ascendência e você sabe, lá no fundo que é isto mesmo. Você sente, só não deixa expandir…

Talvez por um aborrecimento, talvez porque você não queira estar grávida, talvez por você estar só neste processo, e muito mais talvez porque você não tenha tempo de pensar nisto. È, tempo, coisa rara para nós, que estamos na frente de nossas famílias, á margem da periferia, em um abrigo, ou presa dentro do seu próprio lar, se é que se pode chamar de lar… Irmãs, eu não lhe culpo por nada, só vem se descobrir comigo porque daí eu também sei que não estarei sozinha.

 

– Akillah!

E, é assim que uma mãe de três inicia este relato, chamando a atenção da agora então, a filha do meio.

Dia 21 de maio foi minha última menstruação, que durou por sete dias, o que me assustou muito, já que eu ficava no máximo três dias menstruada, com um ciclo certeiro de 25 dias, sangrar por sete dias, era meu útero sinalizando que poderia ter acontecido algo, ou não, afinal, nossos ciclos se alteram sempre. Então, deixei o meu corpo falar, observei os sinais, meus fluídos ( mucos), cheiros, gostos e cores para me entender…

Sobre muco cervical:…
O muco cervical é um fluido natural e saudável produzido pelas células mucossecretoras do colo do útero.  Ele possui duas maiores funções na ajuda da manutenção da nossa saúde vaginal, a primeira é que ele impede as bactérias que estão alojadas ali na região íntima da mulher consigam entrar no útero, e a outra  é ajudar ao espermatozóide chegar até o útero no período fértil. Durante seu ciclo o muco também segue seu ciclo e vai mudando suas cores, texturas, cores e quantidades.
Após a menstruação, o estrogênio aumenta a produção de muco cervical, no início o seu aspecto é mais branco e seco e meio grudento, subindo os níveis de estrogênio,  o muco vai ficando mais transparente, elástico e sua consistência é idêntica ao de uma clara de ovo aguada e seu gosto é mais adocicado. Quanto mais próximo à ovulação, mais abundante, líquido e fértil é o muco.
Fontes: Mandala Lunar e Tua Saúde

 

Cada vez mais angustiada e preocupada, não posso negar, afinal de contas, seria o quarto filho (a) , acho que no meu caso é filha, já que até agora eu não tive um menino, tudo é uma luta intensa, e nós mulheres negras sabemos qual é o medo que nos assombra, a morte. Minha mãe se foi assim, aos 28 anos ( Minha mãe teve duas gestações, duas gestações complicadas, no meu parto, ela foi amarrada na maca e no da minha irmã deixaram um fio de gaze dentro dela, o que levou a uma infecção generalizada, resultado foi uma mulher negra que se vai aos 28 anos de idade deixando duas filhas).

Não podemos negar, que por mais que saibamos que a vida pode pulsar dentro de nós, o medo de ser violentada verbalmente ou com atitudes, ou a nossa morte até mesmo do nosso bebê reflete em praticamente todas as mulheres negras que engravidam até hoje. Somos as que mais morremos em partos e puerpério, o racismo está aí todos os dias e nos corta a carne dolorosamente, não é mascarado para ninguém.

No meu caso, além de tudo isto, ainda perpetua uma batalha espiritual intensa, aqui cabe outra história… Somos cheias de histórias e vivências, que nos fazem, nos constroem e reconstroem a todo momento, precisamos valorizar nossas histórias de vitórias principalmente. Aqui entra a história daquelas pessoas que não suportam assistir o seguir da vida das pessoas, que temos aos montes, e que tentam barbaridades para tentar atrapalhar este caminhar. Eu, uma vez li, em um dos texto da Ronilda Ribeiro, Caráter ² que quem segue a filosofia iorubá, tem dois caminho a seguir, o do bem, o bem anula qualquer ação má, a magia faz parte da nossa vida, ela está em tudo, acreditamos nas forças da natureza e somos regidas por elas, nossos deuses. E o mal, lembrando que “Seu caráter proferirá sua sentença.” Já sabemos…né?

Toda vez que uma mulher negra engravida, ela está em estado único, potencializador,é vista como próprio deus. Bem como ter muitos filhos é sinônimo de prosperidade. Aí entra outro ponto primordial pra mim … Minha visão branca sobre maternidade. Como eu realmente me enxerguei na descoberta desta gestação… Eu, hoje, já me perdoei por isto, e pedi perdão ao meu filho(a) também, por não compreender o real sentido da maternidade para nós, mulheres negras. As ideias ocidentais já estão tão arraigadas em nosso ambiente, que é um trabalho contínuo, diário descolonizar até mesmo suas reais ideias e leituras.

Minha rotina, seguia a mesma, levar Akillah na escola, cuidar do Nana, da casa, da minha espiritualidade, ler algo, e nesta semana estou lendo No Colo das Iabás, de Vania Vasconcelos, recomendo imensamente a leitura, pois trata se de uma análise principalmente do papel materno na literatura de escritoras negras… o restante vocês leiam, só sei dizer, que vale imensamente a pena.

Neste intervalo, fiz dois testes de farmácia, já que eu já chegava em quase 21 de julho e nada da menstruação descer. Ambos os testes deram negativos, e eu juro que eu não sei se ficava triste ou feliz, nestas horas, é tudo muito confuso, você não raciocina direito, principalmente porque a rotina da casa não lhe espera, ela continua e você sente a necessidade de dar conta, não que precise, mas você acha que precisa…

E segui, preocupada, mas segui…. A cabeça girava de várias formas diferentes, uma foi de como eu perdi a minha mãe, minha mãe faleceu aos 28 anos decorrente de uma negligência obstétrica, no parto da minha irmã. Foi deixado dentro dela um fio de gaze que ela só descobriu quase trẽs anos depois, foi quando a abriram e não restava mais nada ou quase nada dentro dela. Mulher negra da área de saúde, enfermeira e instrumentista, mãe solo de duas meninas, eu com 10 anos e minha irmã, com 3, na época…  Samuel ali, do meu lado o tempo todo, encorajando e me dando forças, tentando diminuir meus medos momentâneos.

Foi quando eu e Samuel decidimos realizar o terceiro teste de gravidez, que compramos a noite e iríamos realizar no primeiro xixi do outro dia.

O dia vai chegando ao fim, e as meninas se agrupam na minha cama para dormir, pois amanhã é dia de escola, estávamos assistindo “Os Seus, os Meus e os Nossos” quando Àgatha diz que queria ter mais um irmão, eu olho super assustada pra ela e continuo a assistir o filme.

Pela manhã, na verdade madrugada, às 5 eu levanto para ir ao banheiro e aproveito para fazer o exame, e adivinha?  O maravilhoso dois tracinhos estão ali, bem na minha frente. Juro que eu pirei, acordei o Samuel na hora, que a reação fora pular da cama e me abraçar. Ainda atônita,desesperada não sei se por susto ou outra coisa…  acordei as meninas para iniciarem o dia, e a Aisha vai fazer o xixi de lei pela manhã e vem, ainda meio desacordada e diz : – Mãe! Te amo!

Com os olhos fazendo esforço para permanecerem abertos, aquela reação dela acalentou meu coração e me deu forças, Àgatha chorou, eu chorei, Akillah chorou e Samuel me olhou tipo: – Estamos aqui!  Ali, eu pude perceber e sentir um clã, feliz pela chegada de mais um Sol em nossas vidas.

A língua e a lógica banto-congo. sugerem que nossos ancestrais angolanos acreditavam que a pessoa é uma energia, espírito ou poder. Ser humano, na visão banto-congo, é ser uma “pessoa” que é um sol vivo, possuindo um espírito (essência) cognoscente e cognoscível por meio do qual se tem uma relação duradoura com o universo total, perceptível e ponderável. Para os banto-congo, o nascimento de uma criança é percebido como a ascensão de um “sol vivo” ao mundo superior (Fu-Kiau,1991, p. 8). A pessoa é ao mesmo tempo o recipiente e o instrumento da energia e dos relacionamentos divinos. É a essência espiritual da pessoa que a torna humana. como Ngolo (energia, espírito ou poder), a pessoa é um fenômeno de “veneração perpétua.” p.282
SAKHU SHETIZ– Retomando e Reapropriando um Foco Psicológico Afrocentrado.
Wade W. Nobles
Imagem: https://unsplash.com/photos/LUqrgye0J2M

Um Manual Para Chamar de Nosso

por Nanda de Oliveira com colaboração de Clélia Rosa.

Antes de apresentar esse pequeno manual (que não está encerrado, ao contrário, é vivo, pulsante e totalmente aberto a novidades), gostaria de compartilhar o que me impulsionou a escrevê-lo.

Sempre me preocupei com as questões raciais por motivos óbvios. Depois que me tornei mãe, a vigília passou a ser ainda mais constante. Sempre digo que nós, mães pretas, não temos sequer o privilégio de descansar, não podemos baixar a guarda nem por um minuto, é piscar os olhos que o racismo estrutural nos apresenta uma situação para lidar.

Além das questões inerentes a todas as mães quando o assunto é a escolha da escola (praticidade, método, preço, localização), nós precisamos sempre pensar também se a instituição estará preparada para lidar com as questões raciais, e é neste ponto que vemos o quanto ainda temos que caminhar. Tirando a EMEI Nelson Mandela, localizada aqui em São Paulo e referência em educação que promove a igualdade racial, são pouquíssimas as opções que atendem a contento esta necessidade, ou seja, que cumprem a lei. Esse despreparo por parte das instituições de ensino nos impulsiona muitas vezes a matricular nossos filhos/as na escola “menos pior”.

A Lei n. 9.394/96 estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Em 2003 ela foi alterada pela Lei n. 10.639 para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”. Alguns anos depois a Lei n. 11.645/2008 tornou obrigatório também o ensino da cultura indígena.

Assim, atualmente a LDB em seu artigo 26-A estabelece ser obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados, dizendo ainda:

  • 1. O conteúdo programático a que se refere este artigo incluirá diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira, a partir desses dois grupos étnicos, tais como o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil.     (Redação dada pela Lei nº 11.645, de 2008).

Mas, em 15 anos de vigência da Lei n. 10.639, o quê as crianças aprenderam nas escolas sobre a história de África e dos afro-brasileiros?

Também passei por todo esse processo de conhecimento, reconhecimento e afirmação da minha identidade negra, e como é doloroso quando é tardio, quando aqueles que estão ao seu redor não têm o mínimo de consciência racial e sequer repensam seus privilégios. Para falar a verdade, às vezes fico com a impressão de que esse processo nunca tem fim. Ainda na minha vida adulta tenho meus questionamentos, e isso sinceramente não é o que eu desejo para a minha filha ou para qualquer criança negra. Podemos (e devemos) construir e fortalecer a identidade preta das nossas crianças desde a primeira infância. A escola e a sociedade também são responsáveis por esta caminhada. Nós queremos construir ao invés de desconstruir, e isso só será possível se investirmos na educação de todas as crianças. A questão racial está fortemente presente em nossa sociedade e não há como deixar essa pauta fora dos muros da escola.

Foi pensando em ecoar a nossa voz que surgiu a ideia de escrever e compartilhar essa experiência com outras pessoas. É importante dizer que não sou especialista em educação, e que a construção desse manual partiu da vivência enquanto procurava escola para minha filha e das ricas trocas de saberes entre nós, mães pretas.  

Manual para promover a diversidade e inclusão na educação

“Numa sociedade racista não basta não ser racista, é necessário ser antirracista”
Ângela Davis

Segundo o dicionário Houaiss, manual é uma obra de formato pequeno que contém noções ou diretrizes relativas a uma disciplina, técnica, programa escolar etc.; um guia prático. E esse é o intuito: compartilhar com as famílias preocupadas em constituir uma sociedade mais justa e igualitária uma diretriz de como contribuir para uma educação antirracista. O mundo precisa ser legal pra todo mundo.

É na infância que se constroem a identidade e as concepções de respeito, e é no ambiente escolar que a maioria das crianças negras tem contato com o racismo pela primeira vez.

É importante ressaltar que o racismo no Brasil é um sistema de opressão criado pelos brancos. Este tema então deve ser tratado não apenas quando levantado por uma mãe negra ou quando há criança negra na sala ou, ainda, apenas em novembro (mês da consciência negra), mas sim de forma contínua e sistemática desde a educação infantil.

Outro equívoco frequente é tratar a questão racial somente diante de algum episódio de racismo. Precisamos trabalhar na prevenção, contrapor informações, pois o sistema é bruto e a quantidade de informações e mensagens racistas (subliminares e explícitas) é enorme.

As crianças enxergam as diferenças e isso é extremamente salutar. Trabalhar sob o viés do “somos todos iguais” ou ainda “elas não enxergam diferenças” é subestimar a capacidade das crianças e corroborar para que o racismo estrutural perdure.

“Ensine-lhe sobre a diferença. Torne a diferença algo comum. Torne a diferença algo normal. Ensine-a a não atribuir valor à diferença. E isso não para ser justa ou boazinha, mas simplesmente para ser humana e prática. Porque a diferença é a realidade de nosso mundo. E, ao lhe ensinar sobre a diferença, você a prepara para sobreviver num mundo diversificado (…) esta é a única forma necessária de humildade: a percepção de que a diferença é normal.” (Para educar crianças feministas, Chimamanda Ngozi Adichie).

Porque as pessoas não são iguais, mas as oportunidades precisam ser. E apenas quando a escola, um lugar de construção de conhecimento e onde as crianças passam a maior parte de seu tempo, compreender a necessidade urgente de uma educação antirracista é que essa realidade poderá acontecer.

Para a pedagoga Clélia Rosa, não importa qual método a escola siga (Montessori, Waldorf, Reggio Emilia, Tradicional, Construtivista), é necessário saber como a metodologia adotada dialoga com a diversidade e a realidade brasileiras.

Toda escola, pública ou particular, é obrigada a ter um projeto político-pedagógico, então é importante saber:

  1. Como a escola tem aplicado a LDB nas questões étnico-raciais?
  2. Foi realizado curso de formação para os professores? Ninguém ensina o que não sabe; cursos de formação nesta área são de extrema importância.
  3. Quais práticas a escola tem desenvolvido para ser reconhecida como uma instituição antirracista?

Caso a escola não apresente nenhuma ação concreta, além de cobrar o cumprimento da LDB, os pais podem sugerir algumas ações.

  1. Curso de formação para os professores: há diversas instituições que realizam cursos, muitas vezes gratuitos. Além disso, há especialistas no assunto que podem ministrar esses cursos no interior das escolas.
  2. No site: http://100meninasnegras.com há uma lista bem diversificada de livros infantis com protagonistas negros e negras. Vale a pena consultar.
  3. “Nada sobre nós, sem nós.” Não há como falar da cultura afro-brasileira sem procurar referências nos autores e autoras negras, e há muitos, só precisam de visibilidade.
  4. Contratação de professoras/es negras: Representatividade importa sim. Uma criança negra enxergar-se em um(a) professor(a) contribui muito para sua autoestima. Ademais, estudos comprovam que promover a diversidade na empresa é produtivo e, em muitos casos, indutor da inovação: “É uma equação tão simples quanto efetiva: culturas diferentes + trajetórias diferentes + visões de mundo diferentes em uma equipe resultam em uma probabilidade maior de encontrar soluções diversas e criativas para a empresa.” (reportagem completa em:  https://epocanegocios.globo.com/Empresa/noticia/2017/09/por-mais-inovacao-e-produtividade-grandes-empresas-promovem-diversidade.html).
  5. Contar a verdadeira história de África e dos filhos da diáspora africana: é necessário mudar a forma como os africanos escravizados são retratados nos livros de história e mostrar aos alunos a contribuição dos negros em diversas áreas (saúde, tecnologia, ciências, artes….). Há um livro excelente sobre o tema que se chama “GÊNIOS DA HUMANIDADE – CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO AFRICANA E AFRODESCENTE”, de autoria do historiador Carlos Eduardo Machado.
  6. Peças teatrais e visitas a museus também são formas de colocar os alunos em contato com a cultura afro-brasileira de maneira positiva. Em São Paulo, destaque para o Museu Afro-Brasil, localizado no Parque do Ibirapuera.

Considerações Finais

Uma boa escola se constrói com a participação efetiva dos pais, e nessa equação “escola + família” todos têm a ganhar, mas “cada um no seu quadrado”. Os familiares podem levar os questionamentos e as proposições contidas neste manual, porém a escola não pode se eximir de sua responsabilidade; cabe a ela cumprir a lei, ou seja, trabalhar e realizar um projeto político-pedagógico que realmente promova a igualdade racial no ambiente escolar.

Sobre Elas:

Nanda e Inaê

 

 

Nanda de Oliveira, bacharel em Direito, Consultora Capilar na empresa Deixa a Madeixa, produtora de conteúdo do instablog Corredoras Cacheadas, mulher preta e mãe da Inaê.

 

 

 

19145712_1733314883349915_8985652840757349923_nClélia Rosa, pedagoga e mestre em Educação. O principal eixo do seu trabalho engloba a infância nos seguintes temas: educação infantil, culturas infantis, formação de professores/as e metodologias de promoção da igualdade racial desde a pequena infância. Mãe da Eloísa e da Aisha e uma incansável defensora das crianças para que tenham uma infância livre de racismo.

 

Referências bibliográficas

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Para educar crianças feministas: um manifesto / Chimamanda Ngozi Adichie; tradução Denise Bottmann. — 1a ed. — São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

MACHADO, Carlos Eduardo Dias. Gênios da Humanidade: Ciência, Tecnologia e Inovação Africana e Afrodescendente / Carlos Eduardo Dias Machado e Alexandra Baldeh Loras. São Paulo: DBA Artes Gráficas, 2017.

 

A HUMANIZAÇÃO DO PARTO (QUE NÃO É O NOSSO!)

Por Carla Cavallieri

O Nana iniciará hoje uma série de posts informativos para que nossas seguidoras e outras mães tenham acesso a informações vitais para a sua gestação, parto e puerpério. O primeiro post é sobre Humanização de Parto. E o porque que não chega até nós, mulheres negras essa famosa humanização.

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O processo de humanização de parto, tem seu início em 2002 ( eu tive Àgatha em 2006, nunca soube e nem vi), no entanto no ano de 2000 já havia sido publicado uma portaria  Portaria/GM n.o 569, de 1/6/2000, que traz em sua segunda linha o seguinte texto:

“Considerando que o acesso das gestantes e recém-nascidos a atendimento digno e de qualidade no decorrer da gestação, parto, puerpério e período neonatal são direitos inalienáveis da cidadania;…”

E, em que consiste esta humanização? Segundo as Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, de 2017, o documento atual, este projeto foi fundamentado á partir de dois objetivos principais:

  1. O primeiro diz respeito à convicção de que é dever das unidades de saúde receber com dignidade a mulher, seus familiares e o recém nascido. Isto requer atitude ética e solidária por parte dos profissionais de saúde e a organização da instituição de modo a criar um ambiente acolhedor e a instituir rotinas hospitalares que rompam com o tradicional isolamento imposto à mulher;
  2. O outro se refere à adoção de medidas e procedimentos sabidamente benéficos para o acompanhamento do parto e do nascimento, evitando práticas intervencionistas desnecessárias, que embora tradicionalmente realizadas não beneficiam a mulher nem o recém nascido, e que com freqüência acarretam maiores riscos para ambos.

As prioridades deste plano são:

  • concentrar esforços no sentido de reduzir as altas taxas de morbimortalidade materna, peri e neonatal registradas no país
  • adotar medidas que assegurem a melhoria do acesso, da cobertura e da qualidade do acompanhamento pré-natal, da assistência ao parto, puerpério e neonatal;
  • ampliar as ações já adotadas pelo Ministério da Saúde na área de atenção à gestante, como os investimentos nas redes estaduais de assistência à gestação de alto risco, o incremento do custeio de procedimentos específicos, e outras ações como o Maternidade Segura, o Projeto de Capacitação de Parteiras Tradicionais, além da destinação de recursos para treinamento e capacitação de profissionais diretamente ligados a esta área de atenção, e a realização de investimentos nas unidades hospitalares integrantes destas redes.

E na sua estrutura,  estão incluso os seguintes direitos á gestante:

  • toda gestante tem direito ao acesso a atendimento digno e de qualidade no decorrer da gestação, parto e puerpério;
  • toda gestante tem direito de saber e ter assegurado o acesso à maternidade em que será atendida no momento do parto;
  • toda gestante tem direito à assistência ao parto e ao puerpério e que esta seja realizada de forma humanizada e segura, de acordo com os princípios gerais e condições estabelecidas na prática médica; todo recém-nascido tem direito à assistência neonatal de forma humanizada e segura.

Daí ache o erro, sobre a elaboração deste projeto, foi elaborada uma comissão que é uma piada e vocês me dirão o porque. Até porque nós precisamos discutir este tema com afinco, para que sim, chegue até nós.

Falamos aqui de uma humanização branca, e vamos muito mais além, no artigo de Maria do Carmo, A cor da dor: iniquidades raciais na atenção pré-natal e ao parto no Brasil. Nos  traz dados atualizados sobre o racismo esmagador da Rede SUS.   Maria do Carmo vai falar do Inquérito pedido pela Rede SUS que se chama Nascer No Brasil, que é uma pesquisa de amplitude nacional sobre gestações, pré-natais, parto e puerpério, ou seja, todas as demandas que permeiam a maternidade. È uma pesquisa totalmente minuciosa, aqui destacarei o resultado:

Todas as características sociodemográficas analisadas e utilizadas para o controle no pareamento pelo escore de propensão se associaram à raça/cor. Em comparação às mulheres brancas, as mulheres pardas e pretas se concentram mais nas regiões Norte e Nordeste, assim como nas com pagamento público do parto, nas adolescentes, nas menos escolarizadas, nas pertencentes às classes econômicas D e E, e nas com três ou mais partos anteriores (Tabela 1). A análise comparativa de puérperas pretas vs. brancas gerou uma subamostra de 6.689 mulheres, sendo 1.840 pretas e 4.849 brancas após o pareamento pelo escore de propensão. As puérperas de cor preta possuíram maior risco de terem um pré-natal inadequado (OR = 1,62; IC95%: 1,38-1,91), falta de vinculação à maternidade (OR = 1,23; IC95%: 1,10-1,3 7), ausência de acompanhante (OR = 1,67; IC95%: 1,42-1,97) e peregrinação para o parto (OR = 1,33; IC95%: 1,15-1,54). As pretas também receberam menos orientação durante o pré-natal sobre o início do trabalho de parto e sobre possíveis complicações na gravidez. Apesar de terem menor chance para uma cesariana e de intervenções dolorosas no parto vaginal, como episiotomia e uso de ocitocina, em comparação às brancas, as mulheres pretas receberam menos anestesia local quando a episiotomia foi realizada (OR = 1,49; IC95%: 1,06-2,08). A chance de nascimento pós-termo, em relação ao nascimento termo completo (39-41 semanas), foi maior nas mulheres pretas que nas brancas (Tabela 2). A comparação entre puérperas pardas e brancas resultou numa subamostra de 13.318 mulheres, das quais 6.659 eram pardas e 6.659 brancas. Os resultados indicaram maior risco de as puérperas pardas terem pré-natal inadequado (OR = 1,24; IC95%: 1,12-1,36) e ausência de acompanhante (OR = 1,41; IC95%: 1,27-1,57). Foi menor o risco para uma cesariana e para realização de episiotomia e uso de ocitocina no parto vaginal. As puérperas pardas também apresentaram maior chance de nascimento pós-termo em relação ao nascimento termo completo (39-41 semanas) em comparação às mulheres brancas (Tabela 3). Na comparação entre pretas e pardas, a subamostra foi de 9.006 mulheres, sendo 1.804 pretas e 7.202 pardas. A inadequação no pré-natal, a não vinculação à maternidade e a não orientação durante o pré-natal sobre o início do trabalho de parto foram mais frequentemente observadas nas puérperas pretas. Não foram encontradas diferenças significantes para os demais desfechos estudados (Tabela 4).

LEAL, Maria do Carmo et al. A cor da dor: iniquidades raciais na atenção pré-natal e ao parto no Brasil. Cad. Saúde Pública [online]. 2017, vol.33, suppl.1.pag.05

No Caderno  Humaniza SUS Vol 4 – Humanização do Parto e do Nascimento, vai trazer uma questão bastante pertencente a este tema que é o Modelo Técnicomédico ou Biomédico que consiste  na identificação do corpo como uma máquina e o paciente como um objeto de estudo, um ser patológico e não enxerga a integração do corpo com a mente, o corpo como um organismo e que o paciente é um ser relacional.

Portanto, no contexto geral, humanizar é enxergar o paciente como um ser relacional, e não um objeto de estudo, olhando assim, é tão simples… Mas não, quando se fala de uma sociedade estruturada em cima de uma teoria racial, branca, racista, misógina e sexista.

Salienta também a não atualização das Instituições de Ensino, que formam estes médicos, mas o Brasil é racistão né mores, portanto, estas instituição não irão formar “doutores ou doutoras” diferentes. È um ponto a se pensar não?

Bom, e ainda ouço que maternidade não tem cor né? Melhor ler isto, do quer ser cega meu povo. A verdade é que nos matam, a todo tempo, e á partir destes resultados podemos nos armar de medidas, como a informação. Eu vejo fotos lindas no instagram, vejo stories lotados e pouca preocupação com as crias pretas que virão ao mundo.  Iremos realizar posts informativos e simples para que esta informação chegue em todas, eu tenho fé. Não dá pra postar fotinho linda e ficar de braços cruzados. O Brasil tem cor, e ela é branca e se nós não cuidarmos de nós será difícil sobreviver . Então irmãs, não tenha preguiça e não naturalize, muito menos bata palma pra um modelo de maternidade que não nos pertence, é adequação, adaptação, é ação.

Ah! Segue o link do início de uma biblioteca materna, com alguns textos e materiais importantes para se ler. Quem quiser contribuir é só me enviar o material por e-mail.

Um segunda maravilhosa!

Carla Cavallieri.

 

Bibliografia:

LEAL, Maria do Carmo et al. A cor da dor: iniquidades raciais na atenção pré-natal e ao parto no Brasil. Cad. Saúde Pública [online]. 2017, vol.33, suppl.1, e00078816.  Epub July 24, 2017. ISSN 1678-4464.  http://dx.doi.org/10.1590/0102-311×00078816.

http://www6.ensp.fiocruz.br/nascerbrasil/

Clique para acessar o diretrizes_nacionais_assistencia_parto_normal.pdf

Clique para acessar o diretrizes_nacionais_assistencia_parto_normal.pdf

Clique para acessar o caderno_humanizasus_v4_humanizacao_parto.pdf

Percalços de uma maternidade dividida em cores.

Eu não sei se este texto vai ser do seu interesse, porque é uma Mãe Preta que escreve. Eu não sei se você irá ler até o final, porque neste exato momento já está dizendo que “é mi mi mi”. Nem eu sei se continuo este texto, porque ninguém quer nos ouvir… Até eu duvidei da minha pessoa, desacreditei, desconfiei, indaguei e não insisti…

Mas, pera, não dá, por mais que vocês não vejam, eu vou falar, preciso falar… Falar que nós não somos vistas, que nossas dores não importam, ou que nossa condição de maternidade é a pior . Seguimos com a ideia de que nossos filhos são só mais um no mundo, consequência de não se prevenir na hora de “trepar”, isso mesmo trepar… Ou você acha que o doutor do SUS fala diferente quando anunciamos o desconforto com a dor da dilatação…. “Gostou de trepar sem se previnir agora aguenta”.

A verdade é que vocês nunca irão enxergar a nossa realidade, porque não é a de vocẽs, ou mesmo, porque não se importam. Uma mulher branca parindo e indo pra casa no mesmo dia vira notícia, e exploram esta notícia como se fosse algo extraordinário. Agora, me diz aí, qual de vocês que possuem mais velhos, avós ou mães mesmo que já contaram um história de parto?  Tipo, eu escutei da minha avó que ela pariu meu tio mais novo numa estação de trem e no outro dia voltara pro trabalho porque não podia faltar, era lavadeira do hospital HCE. Agora, pare, pense… Quantas histórias??? Isso é novidade para nós? EU POSSO DIZER QUE NÃO! Parir é uma condição natural feminina, e ainda digo mais, nós não parimos somente nossas crias… Parimos sonhos e corremos atrás deles, os realizamos…  O sistema diz que não, a própria mídia social, esta, para qual eu escrevo agora, vai dizer que não, meu texto vai ser invalidado, porque eu sou negra, pobre e mãe, não conheço essa tal realidade… Claro, e nunca quero conhecer, porque essa não é a minha realidade… À realidade das minhas irmãs, que deixa o filho sozinho em casa para cuidar do filho da madame.  Eu acho super legal e necessário, nós criarmos as nossas crias, mas não podemos, porque …. Porque? Me digam o porque irmãs??? Porque somos apagadas… Nós não parimos, colocamos filhos no mundo, esta é a visão que o sistema tem de nós. Invalidam nosso discurso, nos sabotam e nos deixam ali na vala, pra morrer .  Agora, eu queria mesmo estar na mente de alguns daí de fora, pra ver como que elas encaram a nossa voz, que por enquanto é pequena… Mas grita, defende e apoia.

Eu, certa vez, estava em uma conversa, com mães mesmo, que estavam ressaltando a vida dos jovens negros, que estão saindo das universidades. mas continuam desempregados  leia aqui e aqui .

È um recado, se bem que me entendem, quando eu me dei conta, eu rapidamente pensei: – O que será das minhas filhas??? Pensa comigo: – To eu e meu Rei aqui, trabalhando que nem uma condenada, pago de tudo, e faço de tudo para dar uma boa educação para minhas filhas, para que elas possam ter um futuro melhor….. A esperança das nossas mães e avós era a educação, mas e agora?  Mesmo com educação, nós estamos de fora?

A verdade é que a nossa demanda precisa urgentemente estar em pauta, e não vem dizer que mulher negra é a mesma coisa que mãe, que não é, há uma hora em que os caminhos se dividem, e nós precisamos ser acolhidas, respeitadas, humanizar-nos é preciso irmãs. Mas primeiramente entre nós, pra após ir pra fora.

Não é difícil compreender o porque as mídias sociais negras  lutam para permanecer de pé… È muita sabotagem, principalmente do nosso povo.

Nossas demandas são diferentes, exigem respeito, voz e cuidado… Mas principalmente união. Muitas já narturalizaram a maternidade como fardo, ou só mais um filho ou mais um filho! Assim, como naturalizaram o trabalho como fonte de renda e só.  Nós precisamos dizer não para muitas coisas inclusive para nós mesmas na maioria das vezes não é?

Como eu disse mais cedo, não tem fórmula, mas pode sim, ter muito apoio, troca e conclusão.

 

Agradeço imensamente por ter chego até aqui… Obrigada , você!

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Carl Cavallieri Mulher, Rainha do Samuel, Mãe de Três meninas, apaixoada pela maternagem, Historiadora, Idealizadora do Projeto Nana-Maternidade Preta, Alquimista e Fundadora da IMANi – Saboaria Artesanal .

Imagem destacada: Unsplash.com

A BLOGSFERA MATERNA SE SILENCIOU…

Por Mayara Assunção

Há alguns dias foi publicado o vídeo com a participação da Taís Araújo, no evento Tedx São Paulo. Com o título “Como criar crianças doces num país ácido”, ela conta dos desafios de se criar crianças Negras em um país estruturalmente racista. De pronto, a internet não perdoou. Inúmeros memes, charges e piadas foram feitas com trechos das falas de Taís.

Acontece que a Taís não expôs nenhum fato novo. O que ela disse ali, soa completamente comum e rotineiro para as Mães de Crianças Negras. O único fato novo é que ela falava para pessoas Brancas. E como sempre, as pessoas Brancas não querem abrir mão dos seus privilégios. Não querem ouvir. Minimizar a dor alheia, diminuir as falas de uma mãe é muito mais fácil que mostrar empatia. E, não seria diferente:  A BLOGSFERA MATERNA SILENCIOU.

Não se viu hashtag de apoio, não se viu textos que defendam não só aquela Mãe Negra, mas a CRIANÇA NEGRA da exposição. Não se viu nenhuma reflexão que tire a pessoa do local privilegiado dela. Maternas Feministas falam sempre de bem-estar, falam de melhorias para as crianças, falam do Universo Infantil, mas a verdade é que as lutas não vão além de nenhuma melhoria que esteja fora do seu círculo e da sua proteção.

Não é novidade para ninguém que o Brasil é um País Racista. Que crianças Negras (e principalmente MENINOS NEGROS) não são vistos como as crianças Brancas. Que a liberdade de uma criança no Brasil é sim, determinada pela cor da sua pele.

O que me preocupa não é quando os dados são apontados. O que me preocupa é que MÃES E FAMÍLIAS BRANCAS não chamem para si a responsabilidade de ter o cuidado e esse olhar empático com as Mães, Famílias e Crianças Negras. Me preocupa que nessa onda por uma Maternagem cada vez mais Humana, a questão racial esteja ficando de fora.

É Humano para quem? Maternar é para quem? Exercer uma maternidade ativa e responsável é mesmo fechar os olhos para as falas de Mães Negras? Estamos lutando por toda igualdade, menos quando ela é Racial?
Quando o assunto é o Universo Infantil, as pessoas Negras tem que parar de pegar pessoas Brancas pelas mãos e dizer o que é racismo. Parar de contar a historinha bonitinha que te agrada para ilustrar a nossa dor e não ser tão ríspido. Temos que parar de ser gentil e fazer a boa vizinhança. Ou vamos todos construir uma MATERNAGEM real ou não teremos avanços.

Não são as Mães de crianças Negras que precisam ter empatia e cuidado nos espaços de falas feministas. É você, Mãe de criança Branca, que pratica racismo com os nosso filhos que tem que rever seus espaços, privilégios e seus conceitos.

O silêncio de vocês só confirma a sátira, o silêncio de vocês só enfatiza e mostra a real preocupação de todas vocês!

A verdade é que não há preocupação alguma, ou até há, a preocupação se a maternância negra alcançará a mesma importância que a maternância branca possui, a verdade é que nenhum espaço materno branco se preocupou com o acontecido porque não se preocupam com a vida das nossas crianças ou o quanto os seus filhos serão ou são racistas.

A MATERNÂNCIA NEGRA NÃO  SE SILENCIARÁ DIANTE DE RACISMO!!!
Quer ler mais sobre a questão racial?  

Meninas Negras, “Até a última menina. Livres para viver, livres para aprender, livres de perigo”

 

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Mayara Assunção Filha da Dona Rita. É militante do Coletivo Kianda, Brincante de Cultura Popular, integrante do Bloco Afropercussivo Zumbiido e Mãe do Adriano.

Alguns passos…

Por Carla Cavallieri
Eu fui mãe, pela primeira vez, aos 21 anos. Escutei do obstetra que eu já estava velha para ter filhos enquanto que, na sala de espera, duas irmãs: uma de 16 e outra de 15 anos aguardavam. Eu juro pra vocês que, na hora, eu não entendia.
Ágatha veio ao mundo, e eu lutando para que ela pudesse ter o mínimo de dignidade, uma vida mais calma, melhor do que a minha. Não que a minha vida tivesse sido ruim, como os mais velhos dizem: como pobre eu tive de tudo.
No entanto, há certos tipos de luta que somente quem é mãe, negra e periférica pode travar.
Enquanto a avó paterna da minha filha se preocupava com o exame de DNA, eu me preocupava em dar aula em uma escolinha primária não registrada e ganhava 200 reais por mês, no último ano do normal em nível médio. Era aquela coisa: “Vai fazer normal porque caso nada dê certo na sua vida, você já tem uma profissão…”, e assim seguimos.
Não, eu não me preocupei com o que diziam de mim, eu precisava trabalhar e estudar para minha filha.
Quando Ágatha tinha de 4 para 5 anos, eu entrei para faculdade, fui fazer História na UFRRJ e segui dando aula em dois horários, estudando à noite e tentando dar o melhor para minha filha. Morando com a minha mãe (que é a minha avó), fui criada pela minha avó desde desde novinha. Como muitas IrMães, minha mãe tinha que trabalhar e eu ficava com a minha avó, que eu nunca vi como avó, e sim como mãe, desde quando eu me conheço como gente.
Minha mãe faleceu quando eu tinha dez anos, ela era enfermeira e estava terminando a faculdade de odontologia. Uma questão que me intrigava é: por que ela tinha que trabalhar tanto, por que que ela tinha que estudar tanto, e deixar eu e minha irmã com a minha outra mãe? Nunca nos faltou nada como pobres no entanto, os momentos que estávamos com ela era de pura alegria e descontração.
A minha segunda gravidez chegou num susto tremendo. Afinal de contas, Ágatha estava com oito anos, eu trabalhava em dois horários, estudava à noite e segui, por muitas vezes, anulando minhas querências e transformando minha luta diária em condutor para sobrevivência.
Akillah foi planejada, no entanto quando iniciamos o planejamento eu já estava grávida. kkkkkkkkkkkk.
Desde a gravidez da Aisha, eu e Samuel conversamos e chegamos à conclusão para que eu concluísse a graduação que, diga-se de passagem,  não é mole porque a academia para preto e pobre faz com que você se sinta fora do seu lugar. Eu relutei muito, afinal, quem fica em casa cuidando dos filhos é mulher submissa, (fui ensinada assim) dependente de marido, etc.
Eu tinha que trabalhar o dia todo, estudar à noite e mesmo, que as condições permitissem, eu não poderia ficar em casa, estudar e cuidar das minhas filhas.
Foi uma batalha interna e externa muito grande: eu pensava que ficar em casa, me dedicar aos estudos, à maternidade e à minha casa seria a anulação de toda uma vida,  eu tinha que morrer pra vida, tanto profissional quanto pessoal.
A maternidade da Aisha me fez questionar uma série de acontecimentos cotidianos que eu tentava lembrar da época da Ágatha e não conseguia. Fazia um esforço e não conseguia, e a resposta era: eu não estava ali, estava dando aula.
A verdade é que o sistema quer que a mulher negra não viva, quiçá, sobreviva. E se sobreviver a tantos percalços, que ela sobreviva: mutilada, desonrada e adoecida, física e emocionalmente.
A verdade é que nós não podemos nos dar o “luxo”. O tal do luxo que, na verdade, não é luxo algum, é uma condição normal que eu e qualquer outra mulher negra e mãe tem direito.
A branquitude faz questão de que você se sinta sortudo de possuir algo que os mesmos acham que pertence a eles ou, até mesmo se possuir, precisa ser algo dado por eles, saca? Como se eles fossem os salvadores da pátria, sabe?
Nós temos quer ser ausentes em casa, ter que pedir pra sair no emprego, o que é direito, para ir a uma reunião escolar que sempre é dia de semana e sempre pela manhã, chegar em casa, afazeres domésticos e familiares, são partes do cotidiano de quem possui a cobrança nas costas.  Não é submissão, e sim é o que nós nos cobramos, fazem com que nós sempre estejamos em falta, sempre estejamos devendo algo aos nossos filhos, nossa família quando, na verdade só devemos a nós a verdadeira compreensão.
Eu percebi que a maternidade só me tornou mãe a partir do momento em que eu parei para tentar me compreender e me entender.
Entender como cheguei até aqui. Já vivi algumas coisas e sobrevivi a muitas delas, não adoecida, no entanto com algumas marcas que me permitiram chegar a esta conclusão. Ser paciente comigo, por mais que todo o sistema branco diga que é luxo eu querer acompanhar o desenvolvimento das suas crias de perto, participar de cada instante de cada problema, inclusive de algumas febres, resfriados ou doenças de perto. Porque até disto nos privam ás vezes, ou então são só nestes momentos que estamos perto dos nossos filhos.
Às minhas IrMães, que eu sei que são muitas: um abraço imensamente forte, um colo para descansar, para chorar e uma mão para dar… Não para que você seja forte, mas para que você seja viva, independente de qualquer situação: seja viva para você e sua família e não sobre(VIVA).

A espada que floresceu…

Por Carla Cavallieri.

Por mais que eu tenha tentado mil vezes trazer algo técnico, formativo, novamente eu trago minha alma… Trago meus dias, minhas escolhas e meu cotidiano.

Por aqui,  está tudo uma loucura imensa: Ágatha, de 11 anos, já me fala sobre os elogios que anda recebendo dos meninos, de como um se ajoelhou em frente a ela na hora do recreio dizendo o quanto gosta dela. Aisha está em uma fase linda que juro que havia me esquecido, pois na gravidez da Ágatha eu só sabia trabalhar e estudar, não podia nem pensar em dar uma parada, éramos só nós duas. Um dia desses, Aisha viu um comercial no YouTube onde apareceu uma mulher negra do cabelo crespo e ela me gritou na hora :

– Mamãe, igual, cabelo!!!

Aquilo me encheu de alegria de uma tal forma, uma sensação daquelas assim, tô no caminho certo sabe, tão miúda, mas já sabe quem é e identifica seus traços, melhor ainda, ela tem como se identificar. Desfralde, um monte de nãos que nossa!

A Akillah é uma zangona, com um sorriso sapeca que me acalma e traz de volta a realidade. Aqui, estamos de mudança, uma correria de encaixotar as coisas, ver escola para as crianças, pensar na nova decoração, tudo vem com alegria e muitos sorrisos, além de esquentação de cabeça não é, gente? Quem nunca?

Eu e Samuel estamos tentando vaga na escola pública, pela Prefeitura do Rio, que sabemos bem como funciona, e eu estou rezando para que dê tudo certo.

Com todos estes acontecimentos, somem estudos, que penderam para um lado totalmente diferente, pari junto com Akillah um novo olhar profissional. No pós-parto enfrentei questões pessoais muito profundas, me peguei perdida, com uma questão latente: onde nós estamos? Onde eu estou? Não sei se o descaso que senti durante todo o período gestacional refletiu e se estendeu, só sei que chegou um certo momento que eu não me identificava, não me reconhecia, não me visibilizava. 

Estas questões latentes se transformaram em provocações que me levaram a iniciar uma pequena pesquisa e rapidamente chegar a conclusão de que nós precisávamos explorar as questões relacionadas a nossa maternância.

Termo que também descobri em minhas pesquisas em um dos sites de referência de Maternância Preta, que é  A Mãe Preta da Irmãe  Lu Bento

Maternância  preta é um termo recente usado para falar do ativismo de mulheres-mães negras. A palavra maternância é um neologismo usado para designar a militância motivada pela maternidade, e isso é algo que acontece com a maioria das mães, principalmente mães pretas.

Mães pretas lutando pela sua maternidade, pelas suas crias, para que sua voz seja ouvida e que se importem de verdade. Com este turbilhão de coisas rolando do lado de cá, o Nana ainda pegando o jeito, os estudos que agora foram para um lado totalmente diferente, as crias tocando o terror, tentar se concentrar pra estudar rs, casa nova, mudança, novos planos, nova decoração, lavar o quintal, Akillah chorando, Aisha com a mamadeira da Akillah debaixo da naninha escondida, eu corro até a entrada da casa e noto que de dentro da minha espada de São Jorge estava brotando outra planta.

Olhei, pensando que tinha sido passarinho que tinha trazido outra semente, mas vi que a planta nascia de dentro mesmo da espada, aquilo me intrigou e fui pesquisar sobre, pois cresci em meio a um jardim imenso, inclusive esta espada pertencia a este jardim, foi presente da minha mãe para minha casa, no entanto nunca havia visto a espada dar aquela planta.

A verdade é que a vida não é moleza, e com todos os esteriótipos que enfurnam no povo preto é matar um leão por dia para sobreviver vivendo por aqui, a nós mulheres negras, somos boas parideiras, estamos fadadas a sofrer porque “nós somos fortes e aguentamos” somos abandonadas, sexualizadas, mortas e estupradas porque nós pedimos.  Todos os dias, seja forte, ganhe dinheiro o máximo para sobreviver e aceite porque se for mãe então, nossa!

SEJA FORTE!

VOCÊ É FORTE!

PARA DE GRAÇA!

NÃO SE DÊ AO LUXO DE… De ser manter sã? De não ser forte ? De pedir ajuda?

Eu cheguei a ouvir que agora que eu estou casada, eu só quero engravidar e me encostar no meu marido, isto entre outras coisas, questionamentos sobre quando eu iria retomar as pesquisas e etc…

Porque a mulher branca que tem 3, 4, 5, 10 filhos é exemplo de maternidade e nós, mães pretas, “não fechamos as pernas na hora exata?”, ” Na hora nós viramos os olhinhos, agora aguenta”, ou então, ” É mole assim, o bolsa família tá aí né!”, ” E agora? Ligou?”,   “Já está bom né?” e por aí se segue em inúmeros tipos agressões, isto atrelado a nossa invisibilidade diária.

A ausência da importância com a maternidade negra me deixou em alerta, no entanto, imediatamente fui respondida: nós já temos muito com que nos preocupar todos os dias, se nossos filhos terão o que comer, se na escola não sofreram racismo, estamos ausentes porque temos que ser fortes, a todo o tempo, por todo tempo para que nossos filhos tenham o mínimo de vivência possível, não é luxo, ou privilégio, nós não devemos nos sentir privilegiadas por dar um tempo no trabalho e cuidar para nossas crias, ou por optar que elas tenham um ensino privado, NÃO É PRIVILÉGIO, É DIREITO!

Não permita que este sistema eurocêntrico faça você pensar que você se dá ao luxo, ou que você não deveria estar aonde estar. Daí vem a nossa ausência, nossa ausência nos espaços maternos, que estão tomados pela branquitude, nos espaços educacionais que discutem e garantem uma educação anti racista e inclusiva, nós estamos ocupadas tentando SOBREVIVER, num país racista, machista, misógino que olha para os nossos filhos como futuros marginais. Nós não estamos aí porque a todo momento vocês tentam nos excluir, mas resistir, se organizar e tomar nosso lugar de atuação e fala com um propósito: a ação.

Dizem que a espada de São Jorge possui um crescimento lento,  que é uma planta para quem possui paciência, depois que li esta definição me pus a pensar, parei em meio aquele furacão de emoções e acontecimentos e decidi pensar no que vi e li. Como?

Nós sabemos que planejar nosso tempo com filhos pequenos é quase impossível, por isto, eu tentei acalmar as crias e depois que todas se acalmaram foi a minha hora, joguei a minha playlist de músicas africanas  instrumentais e  me propus a meditar. Aliás, um dos hábitos que adquiri depois que tive Akillah e que me ajudou tipo 90% no processo de pós-parto e puerpério foi a meditação, até porque junto com a gestação da Akillah eu passei por transformações espirituais profundas e eram muito latentes, como permanecem.  As plantas sempre tiveram um significado especial na minha vida,  afinal, sem folha não tem orixá e as folhas, a terra são essenciais na minha vivência.

Questionar todos estes sentimentos pulsantes, todas as situações pensantes me levou a várias situações, presenciar uma planta que eu sempre conheci por sua força, sua capacidade de dissipar demandas, de afastar a negatividade, florescer depois de 33 anos de convivência…  Maternar, me levou a Maternância e eu

F L O R E S C I !

 

 

 

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Neta da Dona Geci  e Dona Isabel, filha da Beatriz e de seu João Batista. Mãe da Àgatha, Aisha e Akillah, esposa do Samuel, professora de séries iniciais e historiadora.

 

Mas e a criança negra?

Por Mayara Assunção

Atualmente, as informações chegam em ritmo acelerado para nós: racismo, genocídio, militância, negritude, violência e tantas outras. Estamos nos tornando especialistas em muitas coisas e, ao mesmo tempo, não somos especialistas  em nada. Mas e a criança negra?

Sabemos prontamente os dados sobre as “mortes pela polícia”,  a quantidade de “ração” que será distribuída pela nova gestão, os bonecos que não estão nas prateleiras, os modelos que não estão na televisão. Mas e a criança negra?

Falamos da “solidão das mulheres”, das “ausências dos homens”, das “sobrecargas das avós”, das “não-obrigações dos tios e amigos”, da “escassez de políticas do sistema”, das “faltas de vagas” na educação/saúde/transporte, falamos de tudo. Absolutamente de tudo. Das dores e dos amores, das comidas e das bebidas. Mas e a criança negra?
E a criança negra?
E o nosso olhar para a criança negra?

Nossos olhares, nossos zelos e nossas lutas reais pela criança negra?
Bom, a grande verdade é que não olhamos (ou pouco olhamos) para as crianças negras. Crianças negras estão sendo invisibilizadas e desprotegidas há muito tempo. Inclusive inconscientemente por nós, militantes, e nos espaços de militância.
Se defendemos e lutamos por políticas antirracismo para os nossos jovens, devemos imediatamente começar a entender as estruturas e preservar as crianças negras ainda na primeira infância.

Não se trata só de falar em acolher mães e crianças negras e deixá-las de canto com meia dúzia de giz de cera à disposição.

Estar, lidar e tratar com crianças, ainda na primeira infância, é muito mais do que separar sulfites e lápis de cor. É olhar para aquela criança como ser em formação, com ternura, como indivíduo. Brincar com atenção, com tempo, envolvimento e cuidado.

Dias atrás, uma amiga desabafou sobre a final de um Slam de SP que ela foi acompanhar (o único que acolhe crianças e mães, inclusive) no qual as pessoas não tinham nenhum respeito com as crianças. Que contraditório lutarmos por dignidade e respeito não exercendo isso com crianças, não é?
Segundo dados da Anistia Internacional, em 2012, 56 mil pessoas foram assassinadas no Brasil. Destas, 30 mil são jovens entre 15 a 29 anos e, desse total, 77% são negros. A maioria dos homicídios é praticado por armas de fogo, e menos de 8% dos casos chegam a ser julgados.”
É claro que estes dados apontam números altíssimos e preocupantes, mas também apontam o nosso olhar para uma parcela de indivíduos que nunca antes foram notados, até virarem estatística. Por que tratamos nossas crianças negras com tanta indiferença durante a primeira infância? Ou melhor, a pergunta deveria ser: “Por que as crianças negras não são vistas como as crianças brancas no Brasil?”.
As crianças negras são vistas desde pequenas como “vítimas do sistema” e como fonte de ”mão de obra”, elas não são vistas como a criança que deveria estar brincando e sendo cuidada.
Recentemente, eu estava andando com algumas amigas no centro de São Paulo e um garoto de rua chegou bem perto de nós. Ele (e elas) se surpreenderam quando perguntei sobre ele estar descalço naquele frio. Ora, eu sei de todas as faltas de políticas e o motivo de ele estar descalço na chuva, mas me espanta que esta criança seja sempre vista como alguém que vai pedir esmola. Ele é criança, então vou primeiro pensar no bem-estar e saúde dele e tratá-lo como criança.

Crianças negras também são vistas como mais fortes e mais “duras” em situações rotineiras, como no ato de pentear os cabelos. As crianças pequenas são submetidas a inúmeros “estica e puxa” para moldar os cabelos crespos, e muitas vezes, sob choro. E é comum ouvir “seja forte, não chore”. Mas por que motivo expomos nossas crianças à dor e pedimos que elas sejam fortes, se o correto seria acolher e oferecer proteção?

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Em situações cotidianas também temos um tratamento diferenciado, como em festas de aniversário. A criança branca, por mais simples que seja, sempre terá comemoração. A criança negra, não. E não estou falando de festas volumosas e grandiosas. Mas comecei a perceber nos círculos de que participo que, por exemplo, a criança branca pequena tem quase todos os convidados presentes nos seus aniversários. As crianças negras, não. É como se para a criança negra, não fosse naturalizado esse direito e esse hábito à felicidade e às comemorações.

Eu tenho uma grande amiga negra que trabalha com festas e que nunca faz festas para os próprios filhos. É natural para ela, que os filhos também negros, irão entender essa ausência de comemoração. Essa ausência da Mãe. Não é a festa em si, mas o fato de comemorar, de estar feliz. Crianças negras não têm esse olhar voltado a elas. Não tem o direito à felicidade, a brincar e a cuidados.

Não por acaso, segundo a Rede Peteca, o estudo do Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (FNPETI) apontou em 2013 que das 3,187 milhões de crianças em situação de trabalho infantil, 1,99 milhão são negras. Porque enquanto essa criança for vista como um ser que “só serve para mão de obra”, dados como este existirão.
Uma simples pesquisa na internet sobre “crianças negras e crianças brancas”  pode revelar matérias como:

E é claro que todos esses dados, todas estas pesquisas estão diretamente ligadas à invisibilidade de crianças negras ainda na primeira infância. É ir além de ver nossas crianças só quando elas crescerem, ou de projetar expectativas no futuro “bandido” ou na próxima “doméstica”. É justamente tirar estereótipos de um ser tão pequeno e levar ele além da nossa zona de conforto e do nosso olhar habitual. Se somos espelhos dessas crianças, devemos ter cuidado, atenção e preocupação com a imagem que estamos refletindo.

E se  “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”, como diz o provérbio africano, então precisamos que toda a aldeia e toda a população brasileira revejam o olhar para com as crianças negras e, acima disso, revejam as práticas e mudem as ações, contemplando e acolhendo crianças negras desde a primeira infância.

Fotos: Mayara Potenza
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 Mayara Assunção é Filha da Dona Rita. É militante do Coletivo Kianda, Brincante de Cultura Popular, integrante do Bloco Afropercussivo Zumbiido e Mãe do Adriano.

Aonde nós estamos ?

 Sobre a invisibilidade de Mães negras na blogsfera materna 

Por Cíntia Aleixo.

O Objetivo deste texto é refletir sobre o elementos fundamentais da escolha das representatividades maternas e dos padrões catalogados de beleza a partir dos blogs relacionados à mulheres aqui no Brasil a partir do conceitual senso comum que questiona a beleza e a inteligência da mulher que também é mãe negra e busca indicar como o processo de escolhas de perfis com tal temática é um percurso que se inicia muito além dos conteúdos encontrados nos Blogs e em especial, na blogsfera maternidade.

Se este percurso para a escolha de um perfil se inicia a partir das leituras e conteúdo, o número de blogs que atingiriam a mídia, os eventos, rodinhas de bate-papo, ações de marketing, atingiriam um número maior de mulheres negras, podendo inclusive auxiliar na retificação do olhar da sociedade para elas.

Apesar de não ser minha intenção retomar toda a argumentação sobre a constituição das famílias negras e específico a mulher negra no mercado de trabalho ao longo de nossa histórias, cabe ressaltar alguns pontos de vista que nos parecem fundamentais para a nossa discussão. Segundo grupos de mulheres negras pertencentes a coletivos, aonde debatem sobre a diferenciação que é feita e vista a olhos nus pela indústria mercadológica aqui no Brasil, o número de mulheres negras participantes de tais eventos já citados acima, é muito reduzido.

Não que aconteça de forma natural; Muito pelo contrário, existe um engajamento para que o contrário aconteça. Percebo e não somente eu, mas que a maioria das mulheres negras vivem a expectativa de criar um Blog, alimentar esse recurso e ter a sensação de não ser vista, de ser invisível, perante a esse “mundo”.

Precisamos estar em todos os lugares que todas as mães ocupam, mas não estamos, infelizmente. Além de não existir a representatividade da Mãe negra nestes espaços, as minhas leitoras também me trazem este mesmo relato e essa é uma observação importante e relevante, apesar de ser um impasse, já que muitas preferem se ausentar destes espaços, como sendo a melhor forma para resolve-lo.

Frequento, sempre que posso, seminários e grupos sobre a maternidade, que é um dos aspectos da sociedade que me envolve e sou de fato apaixonada por essa temática, porém percebo que quando estou nestes locais, o número de mulheres negras é tão reduzido que chega praticamente a ser zero nas maioria dos casos.

A reflexão que trago é direcionada ao tipo de competência e capacidades que precisamos interagir ou diferenciar para que nossos engajamentos interajam e até mesmo modulem as expectativas que o público espera de nossas narrativas.

Existe a troca emocional significativa sim. Nossos filhos também usam fraldas, cotonetes, fórmulas, chupetas, fazem xixi na cama, frequentam escolas, se vestem, dormem, sofrem refluxo, tiram o nosso sono, fazem birra, são chorões, gostam de passear… Ou seja, o que trago aqui é a clara e simples demonstração de que vivenciamos as mesmas frustações e expectativas no maternar, no tornar-se mãe assim como qualquer mãe de qualquer outra raça e cultura.

Somos tantas Mãe negras nesse Brasil, tão grandão, mas sinto a falta de irmãs nesses ambientes e sinto a falta delas tanto em cima dos palcos, através dos discursos quanto sendo mães ouvintes.

Nossos conteúdos, fotos, postagens, interesses, gostos, e vivencias são muito reais e legitimas também.

Precisamos ter uma maior representatividade sim, nesta temática maternidade de forma natural e com isto, abrir portas para o que antes era invisível.

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