Um Manual Para Chamar de Nosso

por Nanda de Oliveira com colaboração de Clélia Rosa.

Antes de apresentar esse pequeno manual (que não está encerrado, ao contrário, é vivo, pulsante e totalmente aberto a novidades), gostaria de compartilhar o que me impulsionou a escrevê-lo.

Sempre me preocupei com as questões raciais por motivos óbvios. Depois que me tornei mãe, a vigília passou a ser ainda mais constante. Sempre digo que nós, mães pretas, não temos sequer o privilégio de descansar, não podemos baixar a guarda nem por um minuto, é piscar os olhos que o racismo estrutural nos apresenta uma situação para lidar.

Além das questões inerentes a todas as mães quando o assunto é a escolha da escola (praticidade, método, preço, localização), nós precisamos sempre pensar também se a instituição estará preparada para lidar com as questões raciais, e é neste ponto que vemos o quanto ainda temos que caminhar. Tirando a EMEI Nelson Mandela, localizada aqui em São Paulo e referência em educação que promove a igualdade racial, são pouquíssimas as opções que atendem a contento esta necessidade, ou seja, que cumprem a lei. Esse despreparo por parte das instituições de ensino nos impulsiona muitas vezes a matricular nossos filhos/as na escola “menos pior”.

A Lei n. 9.394/96 estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Em 2003 ela foi alterada pela Lei n. 10.639 para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”. Alguns anos depois a Lei n. 11.645/2008 tornou obrigatório também o ensino da cultura indígena.

Assim, atualmente a LDB em seu artigo 26-A estabelece ser obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados, dizendo ainda:

  • 1. O conteúdo programático a que se refere este artigo incluirá diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira, a partir desses dois grupos étnicos, tais como o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil.     (Redação dada pela Lei nº 11.645, de 2008).

Mas, em 15 anos de vigência da Lei n. 10.639, o quê as crianças aprenderam nas escolas sobre a história de África e dos afro-brasileiros?

Também passei por todo esse processo de conhecimento, reconhecimento e afirmação da minha identidade negra, e como é doloroso quando é tardio, quando aqueles que estão ao seu redor não têm o mínimo de consciência racial e sequer repensam seus privilégios. Para falar a verdade, às vezes fico com a impressão de que esse processo nunca tem fim. Ainda na minha vida adulta tenho meus questionamentos, e isso sinceramente não é o que eu desejo para a minha filha ou para qualquer criança negra. Podemos (e devemos) construir e fortalecer a identidade preta das nossas crianças desde a primeira infância. A escola e a sociedade também são responsáveis por esta caminhada. Nós queremos construir ao invés de desconstruir, e isso só será possível se investirmos na educação de todas as crianças. A questão racial está fortemente presente em nossa sociedade e não há como deixar essa pauta fora dos muros da escola.

Foi pensando em ecoar a nossa voz que surgiu a ideia de escrever e compartilhar essa experiência com outras pessoas. É importante dizer que não sou especialista em educação, e que a construção desse manual partiu da vivência enquanto procurava escola para minha filha e das ricas trocas de saberes entre nós, mães pretas.  

Manual para promover a diversidade e inclusão na educação

“Numa sociedade racista não basta não ser racista, é necessário ser antirracista”
Ângela Davis

Segundo o dicionário Houaiss, manual é uma obra de formato pequeno que contém noções ou diretrizes relativas a uma disciplina, técnica, programa escolar etc.; um guia prático. E esse é o intuito: compartilhar com as famílias preocupadas em constituir uma sociedade mais justa e igualitária uma diretriz de como contribuir para uma educação antirracista. O mundo precisa ser legal pra todo mundo.

É na infância que se constroem a identidade e as concepções de respeito, e é no ambiente escolar que a maioria das crianças negras tem contato com o racismo pela primeira vez.

É importante ressaltar que o racismo no Brasil é um sistema de opressão criado pelos brancos. Este tema então deve ser tratado não apenas quando levantado por uma mãe negra ou quando há criança negra na sala ou, ainda, apenas em novembro (mês da consciência negra), mas sim de forma contínua e sistemática desde a educação infantil.

Outro equívoco frequente é tratar a questão racial somente diante de algum episódio de racismo. Precisamos trabalhar na prevenção, contrapor informações, pois o sistema é bruto e a quantidade de informações e mensagens racistas (subliminares e explícitas) é enorme.

As crianças enxergam as diferenças e isso é extremamente salutar. Trabalhar sob o viés do “somos todos iguais” ou ainda “elas não enxergam diferenças” é subestimar a capacidade das crianças e corroborar para que o racismo estrutural perdure.

“Ensine-lhe sobre a diferença. Torne a diferença algo comum. Torne a diferença algo normal. Ensine-a a não atribuir valor à diferença. E isso não para ser justa ou boazinha, mas simplesmente para ser humana e prática. Porque a diferença é a realidade de nosso mundo. E, ao lhe ensinar sobre a diferença, você a prepara para sobreviver num mundo diversificado (…) esta é a única forma necessária de humildade: a percepção de que a diferença é normal.” (Para educar crianças feministas, Chimamanda Ngozi Adichie).

Porque as pessoas não são iguais, mas as oportunidades precisam ser. E apenas quando a escola, um lugar de construção de conhecimento e onde as crianças passam a maior parte de seu tempo, compreender a necessidade urgente de uma educação antirracista é que essa realidade poderá acontecer.

Para a pedagoga Clélia Rosa, não importa qual método a escola siga (Montessori, Waldorf, Reggio Emilia, Tradicional, Construtivista), é necessário saber como a metodologia adotada dialoga com a diversidade e a realidade brasileiras.

Toda escola, pública ou particular, é obrigada a ter um projeto político-pedagógico, então é importante saber:

  1. Como a escola tem aplicado a LDB nas questões étnico-raciais?
  2. Foi realizado curso de formação para os professores? Ninguém ensina o que não sabe; cursos de formação nesta área são de extrema importância.
  3. Quais práticas a escola tem desenvolvido para ser reconhecida como uma instituição antirracista?

Caso a escola não apresente nenhuma ação concreta, além de cobrar o cumprimento da LDB, os pais podem sugerir algumas ações.

  1. Curso de formação para os professores: há diversas instituições que realizam cursos, muitas vezes gratuitos. Além disso, há especialistas no assunto que podem ministrar esses cursos no interior das escolas.
  2. No site: http://100meninasnegras.com há uma lista bem diversificada de livros infantis com protagonistas negros e negras. Vale a pena consultar.
  3. “Nada sobre nós, sem nós.” Não há como falar da cultura afro-brasileira sem procurar referências nos autores e autoras negras, e há muitos, só precisam de visibilidade.
  4. Contratação de professoras/es negras: Representatividade importa sim. Uma criança negra enxergar-se em um(a) professor(a) contribui muito para sua autoestima. Ademais, estudos comprovam que promover a diversidade na empresa é produtivo e, em muitos casos, indutor da inovação: “É uma equação tão simples quanto efetiva: culturas diferentes + trajetórias diferentes + visões de mundo diferentes em uma equipe resultam em uma probabilidade maior de encontrar soluções diversas e criativas para a empresa.” (reportagem completa em:  https://epocanegocios.globo.com/Empresa/noticia/2017/09/por-mais-inovacao-e-produtividade-grandes-empresas-promovem-diversidade.html).
  5. Contar a verdadeira história de África e dos filhos da diáspora africana: é necessário mudar a forma como os africanos escravizados são retratados nos livros de história e mostrar aos alunos a contribuição dos negros em diversas áreas (saúde, tecnologia, ciências, artes….). Há um livro excelente sobre o tema que se chama “GÊNIOS DA HUMANIDADE – CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO AFRICANA E AFRODESCENTE”, de autoria do historiador Carlos Eduardo Machado.
  6. Peças teatrais e visitas a museus também são formas de colocar os alunos em contato com a cultura afro-brasileira de maneira positiva. Em São Paulo, destaque para o Museu Afro-Brasil, localizado no Parque do Ibirapuera.

Considerações Finais

Uma boa escola se constrói com a participação efetiva dos pais, e nessa equação “escola + família” todos têm a ganhar, mas “cada um no seu quadrado”. Os familiares podem levar os questionamentos e as proposições contidas neste manual, porém a escola não pode se eximir de sua responsabilidade; cabe a ela cumprir a lei, ou seja, trabalhar e realizar um projeto político-pedagógico que realmente promova a igualdade racial no ambiente escolar.

Sobre Elas:

Nanda e Inaê

 

 

Nanda de Oliveira, bacharel em Direito, Consultora Capilar na empresa Deixa a Madeixa, produtora de conteúdo do instablog Corredoras Cacheadas, mulher preta e mãe da Inaê.

 

 

 

19145712_1733314883349915_8985652840757349923_nClélia Rosa, pedagoga e mestre em Educação. O principal eixo do seu trabalho engloba a infância nos seguintes temas: educação infantil, culturas infantis, formação de professores/as e metodologias de promoção da igualdade racial desde a pequena infância. Mãe da Eloísa e da Aisha e uma incansável defensora das crianças para que tenham uma infância livre de racismo.

 

Referências bibliográficas

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Para educar crianças feministas: um manifesto / Chimamanda Ngozi Adichie; tradução Denise Bottmann. — 1a ed. — São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

MACHADO, Carlos Eduardo Dias. Gênios da Humanidade: Ciência, Tecnologia e Inovação Africana e Afrodescendente / Carlos Eduardo Dias Machado e Alexandra Baldeh Loras. São Paulo: DBA Artes Gráficas, 2017.

 

Mas e a criança negra?

Por Mayara Assunção

Atualmente, as informações chegam em ritmo acelerado para nós: racismo, genocídio, militância, negritude, violência e tantas outras. Estamos nos tornando especialistas em muitas coisas e, ao mesmo tempo, não somos especialistas  em nada. Mas e a criança negra?

Sabemos prontamente os dados sobre as “mortes pela polícia”,  a quantidade de “ração” que será distribuída pela nova gestão, os bonecos que não estão nas prateleiras, os modelos que não estão na televisão. Mas e a criança negra?

Falamos da “solidão das mulheres”, das “ausências dos homens”, das “sobrecargas das avós”, das “não-obrigações dos tios e amigos”, da “escassez de políticas do sistema”, das “faltas de vagas” na educação/saúde/transporte, falamos de tudo. Absolutamente de tudo. Das dores e dos amores, das comidas e das bebidas. Mas e a criança negra?
E a criança negra?
E o nosso olhar para a criança negra?

Nossos olhares, nossos zelos e nossas lutas reais pela criança negra?
Bom, a grande verdade é que não olhamos (ou pouco olhamos) para as crianças negras. Crianças negras estão sendo invisibilizadas e desprotegidas há muito tempo. Inclusive inconscientemente por nós, militantes, e nos espaços de militância.
Se defendemos e lutamos por políticas antirracismo para os nossos jovens, devemos imediatamente começar a entender as estruturas e preservar as crianças negras ainda na primeira infância.

Não se trata só de falar em acolher mães e crianças negras e deixá-las de canto com meia dúzia de giz de cera à disposição.

Estar, lidar e tratar com crianças, ainda na primeira infância, é muito mais do que separar sulfites e lápis de cor. É olhar para aquela criança como ser em formação, com ternura, como indivíduo. Brincar com atenção, com tempo, envolvimento e cuidado.

Dias atrás, uma amiga desabafou sobre a final de um Slam de SP que ela foi acompanhar (o único que acolhe crianças e mães, inclusive) no qual as pessoas não tinham nenhum respeito com as crianças. Que contraditório lutarmos por dignidade e respeito não exercendo isso com crianças, não é?
Segundo dados da Anistia Internacional, em 2012, 56 mil pessoas foram assassinadas no Brasil. Destas, 30 mil são jovens entre 15 a 29 anos e, desse total, 77% são negros. A maioria dos homicídios é praticado por armas de fogo, e menos de 8% dos casos chegam a ser julgados.”
É claro que estes dados apontam números altíssimos e preocupantes, mas também apontam o nosso olhar para uma parcela de indivíduos que nunca antes foram notados, até virarem estatística. Por que tratamos nossas crianças negras com tanta indiferença durante a primeira infância? Ou melhor, a pergunta deveria ser: “Por que as crianças negras não são vistas como as crianças brancas no Brasil?”.
As crianças negras são vistas desde pequenas como “vítimas do sistema” e como fonte de ”mão de obra”, elas não são vistas como a criança que deveria estar brincando e sendo cuidada.
Recentemente, eu estava andando com algumas amigas no centro de São Paulo e um garoto de rua chegou bem perto de nós. Ele (e elas) se surpreenderam quando perguntei sobre ele estar descalço naquele frio. Ora, eu sei de todas as faltas de políticas e o motivo de ele estar descalço na chuva, mas me espanta que esta criança seja sempre vista como alguém que vai pedir esmola. Ele é criança, então vou primeiro pensar no bem-estar e saúde dele e tratá-lo como criança.

Crianças negras também são vistas como mais fortes e mais “duras” em situações rotineiras, como no ato de pentear os cabelos. As crianças pequenas são submetidas a inúmeros “estica e puxa” para moldar os cabelos crespos, e muitas vezes, sob choro. E é comum ouvir “seja forte, não chore”. Mas por que motivo expomos nossas crianças à dor e pedimos que elas sejam fortes, se o correto seria acolher e oferecer proteção?

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Em situações cotidianas também temos um tratamento diferenciado, como em festas de aniversário. A criança branca, por mais simples que seja, sempre terá comemoração. A criança negra, não. E não estou falando de festas volumosas e grandiosas. Mas comecei a perceber nos círculos de que participo que, por exemplo, a criança branca pequena tem quase todos os convidados presentes nos seus aniversários. As crianças negras, não. É como se para a criança negra, não fosse naturalizado esse direito e esse hábito à felicidade e às comemorações.

Eu tenho uma grande amiga negra que trabalha com festas e que nunca faz festas para os próprios filhos. É natural para ela, que os filhos também negros, irão entender essa ausência de comemoração. Essa ausência da Mãe. Não é a festa em si, mas o fato de comemorar, de estar feliz. Crianças negras não têm esse olhar voltado a elas. Não tem o direito à felicidade, a brincar e a cuidados.

Não por acaso, segundo a Rede Peteca, o estudo do Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (FNPETI) apontou em 2013 que das 3,187 milhões de crianças em situação de trabalho infantil, 1,99 milhão são negras. Porque enquanto essa criança for vista como um ser que “só serve para mão de obra”, dados como este existirão.
Uma simples pesquisa na internet sobre “crianças negras e crianças brancas”  pode revelar matérias como:

E é claro que todos esses dados, todas estas pesquisas estão diretamente ligadas à invisibilidade de crianças negras ainda na primeira infância. É ir além de ver nossas crianças só quando elas crescerem, ou de projetar expectativas no futuro “bandido” ou na próxima “doméstica”. É justamente tirar estereótipos de um ser tão pequeno e levar ele além da nossa zona de conforto e do nosso olhar habitual. Se somos espelhos dessas crianças, devemos ter cuidado, atenção e preocupação com a imagem que estamos refletindo.

E se  “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”, como diz o provérbio africano, então precisamos que toda a aldeia e toda a população brasileira revejam o olhar para com as crianças negras e, acima disso, revejam as práticas e mudem as ações, contemplando e acolhendo crianças negras desde a primeira infância.

Fotos: Mayara Potenza
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 Mayara Assunção é Filha da Dona Rita. É militante do Coletivo Kianda, Brincante de Cultura Popular, integrante do Bloco Afropercussivo Zumbiido e Mãe do Adriano.