Primeira Lua

Por Carla Cavallieri

Sobre as águas e lua cheia…
        A água, elemento feminino, passivo, é mantenedora da vida e circula em toda a natureza sob forma de chuva, de seiva, de leite, sangue. Possui o poder de tornar sagrado o que toca e de estabelecer a harmonia. Como todo ser vivente procede das águas, os banhos favorecem os renascimentos rituais e propiciam uma nova circulação das forças por multiplicarem o potencial de vida. Transparentes, profundas, fecundas, correntes ou estancadas, doces ou salgadas, tempestuosas ou calmas,atingem distintos objetivos rituais. As águas superiores, águas das chuvas e do sereno, descem sobre a terra, enquanto as águas inferiores, dos rios, dos lagos, dos mares ascendem através da evaporação. Em movimento contínuo e ininterrupto, sem lutar, as águas rompem o que é duro e resistente.¹
          A lua cheia rege os líquidos, responsáveis pela maior quantidade de seiva nas plantas, mudanças nos mares e inquietações pessoais, na verdade das reações pessoais, e se rege os líquidos rege também nossa menstruação, nossa potencialidade, nossa extravasão.
¹Ìyámi: Símbolo Ancestral Feminino no Brasil. Vanda Alves Torres de Azevedo.

 

Há várias formas de se acompanhar uma gravidez, cada mulher possui sua maneira, dentro de seu clã, da sua família sanguínea ou não, o período da gestação é contado de uma forma, respeito cada um pois cada mulher comanda sua família de acordo com seus costumes, sua ancestralidade, por mais que este termo mude de nome em cada grupo. Na minha família, que é prioritariamente feminina, eu fui criada por mulheres e mais pra frente, iremos falar sobre este assunto mais profundamente, mas as mulheres da minha família contam a gestação por lua cheia, e na verdade até hoje, eu fico meio confusa com estas semanas, é a minha quarta gestação e sempre erro na contagem, não sei se é porque sou de humanas, e o povo de humanas não possui uma boa noção de matemática rs, dizem tá? Não afirmo nada kkkkk.

Então, meus relatos serão contados por luas, na verdade, lua cheia, que é o que sempre funcionou para mim até hoje.

Meninas, estes relatos são práticos, verdadeiros e permissivos. Porquê permissivos? Porque eu me permiti falar sobre a minha jornada, sobre as minhas quedas, levantes conscientes de todo caminho que já trilhei até hoje. Uma jornada física e espiritual porque gerar é um estado de Deus para mulher negra e há muito mais do que mudanças no nosso corpo, há uma ascendência e você sabe, lá no fundo que é isto mesmo. Você sente, só não deixa expandir…

Talvez por um aborrecimento, talvez porque você não queira estar grávida, talvez por você estar só neste processo, e muito mais talvez porque você não tenha tempo de pensar nisto. È, tempo, coisa rara para nós, que estamos na frente de nossas famílias, á margem da periferia, em um abrigo, ou presa dentro do seu próprio lar, se é que se pode chamar de lar… Irmãs, eu não lhe culpo por nada, só vem se descobrir comigo porque daí eu também sei que não estarei sozinha.

 

– Akillah!

E, é assim que uma mãe de três inicia este relato, chamando a atenção da agora então, a filha do meio.

Dia 21 de maio foi minha última menstruação, que durou por sete dias, o que me assustou muito, já que eu ficava no máximo três dias menstruada, com um ciclo certeiro de 25 dias, sangrar por sete dias, era meu útero sinalizando que poderia ter acontecido algo, ou não, afinal, nossos ciclos se alteram sempre. Então, deixei o meu corpo falar, observei os sinais, meus fluídos ( mucos), cheiros, gostos e cores para me entender…

Sobre muco cervical:…
O muco cervical é um fluido natural e saudável produzido pelas células mucossecretoras do colo do útero.  Ele possui duas maiores funções na ajuda da manutenção da nossa saúde vaginal, a primeira é que ele impede as bactérias que estão alojadas ali na região íntima da mulher consigam entrar no útero, e a outra  é ajudar ao espermatozóide chegar até o útero no período fértil. Durante seu ciclo o muco também segue seu ciclo e vai mudando suas cores, texturas, cores e quantidades.
Após a menstruação, o estrogênio aumenta a produção de muco cervical, no início o seu aspecto é mais branco e seco e meio grudento, subindo os níveis de estrogênio,  o muco vai ficando mais transparente, elástico e sua consistência é idêntica ao de uma clara de ovo aguada e seu gosto é mais adocicado. Quanto mais próximo à ovulação, mais abundante, líquido e fértil é o muco.
Fontes: Mandala Lunar e Tua Saúde

 

Cada vez mais angustiada e preocupada, não posso negar, afinal de contas, seria o quarto filho (a) , acho que no meu caso é filha, já que até agora eu não tive um menino, tudo é uma luta intensa, e nós mulheres negras sabemos qual é o medo que nos assombra, a morte. Minha mãe se foi assim, aos 28 anos ( Minha mãe teve duas gestações, duas gestações complicadas, no meu parto, ela foi amarrada na maca e no da minha irmã deixaram um fio de gaze dentro dela, o que levou a uma infecção generalizada, resultado foi uma mulher negra que se vai aos 28 anos de idade deixando duas filhas).

Não podemos negar, que por mais que saibamos que a vida pode pulsar dentro de nós, o medo de ser violentada verbalmente ou com atitudes, ou a nossa morte até mesmo do nosso bebê reflete em praticamente todas as mulheres negras que engravidam até hoje. Somos as que mais morremos em partos e puerpério, o racismo está aí todos os dias e nos corta a carne dolorosamente, não é mascarado para ninguém.

No meu caso, além de tudo isto, ainda perpetua uma batalha espiritual intensa, aqui cabe outra história… Somos cheias de histórias e vivências, que nos fazem, nos constroem e reconstroem a todo momento, precisamos valorizar nossas histórias de vitórias principalmente. Aqui entra a história daquelas pessoas que não suportam assistir o seguir da vida das pessoas, que temos aos montes, e que tentam barbaridades para tentar atrapalhar este caminhar. Eu, uma vez li, em um dos texto da Ronilda Ribeiro, Caráter ² que quem segue a filosofia iorubá, tem dois caminho a seguir, o do bem, o bem anula qualquer ação má, a magia faz parte da nossa vida, ela está em tudo, acreditamos nas forças da natureza e somos regidas por elas, nossos deuses. E o mal, lembrando que “Seu caráter proferirá sua sentença.” Já sabemos…né?

Toda vez que uma mulher negra engravida, ela está em estado único, potencializador,é vista como próprio deus. Bem como ter muitos filhos é sinônimo de prosperidade. Aí entra outro ponto primordial pra mim … Minha visão branca sobre maternidade. Como eu realmente me enxerguei na descoberta desta gestação… Eu, hoje, já me perdoei por isto, e pedi perdão ao meu filho(a) também, por não compreender o real sentido da maternidade para nós, mulheres negras. As ideias ocidentais já estão tão arraigadas em nosso ambiente, que é um trabalho contínuo, diário descolonizar até mesmo suas reais ideias e leituras.

Minha rotina, seguia a mesma, levar Akillah na escola, cuidar do Nana, da casa, da minha espiritualidade, ler algo, e nesta semana estou lendo No Colo das Iabás, de Vania Vasconcelos, recomendo imensamente a leitura, pois trata se de uma análise principalmente do papel materno na literatura de escritoras negras… o restante vocês leiam, só sei dizer, que vale imensamente a pena.

Neste intervalo, fiz dois testes de farmácia, já que eu já chegava em quase 21 de julho e nada da menstruação descer. Ambos os testes deram negativos, e eu juro que eu não sei se ficava triste ou feliz, nestas horas, é tudo muito confuso, você não raciocina direito, principalmente porque a rotina da casa não lhe espera, ela continua e você sente a necessidade de dar conta, não que precise, mas você acha que precisa…

E segui, preocupada, mas segui…. A cabeça girava de várias formas diferentes, uma foi de como eu perdi a minha mãe, minha mãe faleceu aos 28 anos decorrente de uma negligência obstétrica, no parto da minha irmã. Foi deixado dentro dela um fio de gaze que ela só descobriu quase trẽs anos depois, foi quando a abriram e não restava mais nada ou quase nada dentro dela. Mulher negra da área de saúde, enfermeira e instrumentista, mãe solo de duas meninas, eu com 10 anos e minha irmã, com 3, na época…  Samuel ali, do meu lado o tempo todo, encorajando e me dando forças, tentando diminuir meus medos momentâneos.

Foi quando eu e Samuel decidimos realizar o terceiro teste de gravidez, que compramos a noite e iríamos realizar no primeiro xixi do outro dia.

O dia vai chegando ao fim, e as meninas se agrupam na minha cama para dormir, pois amanhã é dia de escola, estávamos assistindo “Os Seus, os Meus e os Nossos” quando Àgatha diz que queria ter mais um irmão, eu olho super assustada pra ela e continuo a assistir o filme.

Pela manhã, na verdade madrugada, às 5 eu levanto para ir ao banheiro e aproveito para fazer o exame, e adivinha?  O maravilhoso dois tracinhos estão ali, bem na minha frente. Juro que eu pirei, acordei o Samuel na hora, que a reação fora pular da cama e me abraçar. Ainda atônita,desesperada não sei se por susto ou outra coisa…  acordei as meninas para iniciarem o dia, e a Aisha vai fazer o xixi de lei pela manhã e vem, ainda meio desacordada e diz : – Mãe! Te amo!

Com os olhos fazendo esforço para permanecerem abertos, aquela reação dela acalentou meu coração e me deu forças, Àgatha chorou, eu chorei, Akillah chorou e Samuel me olhou tipo: – Estamos aqui!  Ali, eu pude perceber e sentir um clã, feliz pela chegada de mais um Sol em nossas vidas.

A língua e a lógica banto-congo. sugerem que nossos ancestrais angolanos acreditavam que a pessoa é uma energia, espírito ou poder. Ser humano, na visão banto-congo, é ser uma “pessoa” que é um sol vivo, possuindo um espírito (essência) cognoscente e cognoscível por meio do qual se tem uma relação duradoura com o universo total, perceptível e ponderável. Para os banto-congo, o nascimento de uma criança é percebido como a ascensão de um “sol vivo” ao mundo superior (Fu-Kiau,1991, p. 8). A pessoa é ao mesmo tempo o recipiente e o instrumento da energia e dos relacionamentos divinos. É a essência espiritual da pessoa que a torna humana. como Ngolo (energia, espírito ou poder), a pessoa é um fenômeno de “veneração perpétua.” p.282
SAKHU SHETIZ– Retomando e Reapropriando um Foco Psicológico Afrocentrado.
Wade W. Nobles
Imagem: https://unsplash.com/photos/LUqrgye0J2M

Um Manual Para Chamar de Nosso

por Nanda de Oliveira com colaboração de Clélia Rosa.

Antes de apresentar esse pequeno manual (que não está encerrado, ao contrário, é vivo, pulsante e totalmente aberto a novidades), gostaria de compartilhar o que me impulsionou a escrevê-lo.

Sempre me preocupei com as questões raciais por motivos óbvios. Depois que me tornei mãe, a vigília passou a ser ainda mais constante. Sempre digo que nós, mães pretas, não temos sequer o privilégio de descansar, não podemos baixar a guarda nem por um minuto, é piscar os olhos que o racismo estrutural nos apresenta uma situação para lidar.

Além das questões inerentes a todas as mães quando o assunto é a escolha da escola (praticidade, método, preço, localização), nós precisamos sempre pensar também se a instituição estará preparada para lidar com as questões raciais, e é neste ponto que vemos o quanto ainda temos que caminhar. Tirando a EMEI Nelson Mandela, localizada aqui em São Paulo e referência em educação que promove a igualdade racial, são pouquíssimas as opções que atendem a contento esta necessidade, ou seja, que cumprem a lei. Esse despreparo por parte das instituições de ensino nos impulsiona muitas vezes a matricular nossos filhos/as na escola “menos pior”.

A Lei n. 9.394/96 estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Em 2003 ela foi alterada pela Lei n. 10.639 para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”. Alguns anos depois a Lei n. 11.645/2008 tornou obrigatório também o ensino da cultura indígena.

Assim, atualmente a LDB em seu artigo 26-A estabelece ser obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados, dizendo ainda:

  • 1. O conteúdo programático a que se refere este artigo incluirá diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira, a partir desses dois grupos étnicos, tais como o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil.     (Redação dada pela Lei nº 11.645, de 2008).

Mas, em 15 anos de vigência da Lei n. 10.639, o quê as crianças aprenderam nas escolas sobre a história de África e dos afro-brasileiros?

Também passei por todo esse processo de conhecimento, reconhecimento e afirmação da minha identidade negra, e como é doloroso quando é tardio, quando aqueles que estão ao seu redor não têm o mínimo de consciência racial e sequer repensam seus privilégios. Para falar a verdade, às vezes fico com a impressão de que esse processo nunca tem fim. Ainda na minha vida adulta tenho meus questionamentos, e isso sinceramente não é o que eu desejo para a minha filha ou para qualquer criança negra. Podemos (e devemos) construir e fortalecer a identidade preta das nossas crianças desde a primeira infância. A escola e a sociedade também são responsáveis por esta caminhada. Nós queremos construir ao invés de desconstruir, e isso só será possível se investirmos na educação de todas as crianças. A questão racial está fortemente presente em nossa sociedade e não há como deixar essa pauta fora dos muros da escola.

Foi pensando em ecoar a nossa voz que surgiu a ideia de escrever e compartilhar essa experiência com outras pessoas. É importante dizer que não sou especialista em educação, e que a construção desse manual partiu da vivência enquanto procurava escola para minha filha e das ricas trocas de saberes entre nós, mães pretas.  

Manual para promover a diversidade e inclusão na educação

“Numa sociedade racista não basta não ser racista, é necessário ser antirracista”
Ângela Davis

Segundo o dicionário Houaiss, manual é uma obra de formato pequeno que contém noções ou diretrizes relativas a uma disciplina, técnica, programa escolar etc.; um guia prático. E esse é o intuito: compartilhar com as famílias preocupadas em constituir uma sociedade mais justa e igualitária uma diretriz de como contribuir para uma educação antirracista. O mundo precisa ser legal pra todo mundo.

É na infância que se constroem a identidade e as concepções de respeito, e é no ambiente escolar que a maioria das crianças negras tem contato com o racismo pela primeira vez.

É importante ressaltar que o racismo no Brasil é um sistema de opressão criado pelos brancos. Este tema então deve ser tratado não apenas quando levantado por uma mãe negra ou quando há criança negra na sala ou, ainda, apenas em novembro (mês da consciência negra), mas sim de forma contínua e sistemática desde a educação infantil.

Outro equívoco frequente é tratar a questão racial somente diante de algum episódio de racismo. Precisamos trabalhar na prevenção, contrapor informações, pois o sistema é bruto e a quantidade de informações e mensagens racistas (subliminares e explícitas) é enorme.

As crianças enxergam as diferenças e isso é extremamente salutar. Trabalhar sob o viés do “somos todos iguais” ou ainda “elas não enxergam diferenças” é subestimar a capacidade das crianças e corroborar para que o racismo estrutural perdure.

“Ensine-lhe sobre a diferença. Torne a diferença algo comum. Torne a diferença algo normal. Ensine-a a não atribuir valor à diferença. E isso não para ser justa ou boazinha, mas simplesmente para ser humana e prática. Porque a diferença é a realidade de nosso mundo. E, ao lhe ensinar sobre a diferença, você a prepara para sobreviver num mundo diversificado (…) esta é a única forma necessária de humildade: a percepção de que a diferença é normal.” (Para educar crianças feministas, Chimamanda Ngozi Adichie).

Porque as pessoas não são iguais, mas as oportunidades precisam ser. E apenas quando a escola, um lugar de construção de conhecimento e onde as crianças passam a maior parte de seu tempo, compreender a necessidade urgente de uma educação antirracista é que essa realidade poderá acontecer.

Para a pedagoga Clélia Rosa, não importa qual método a escola siga (Montessori, Waldorf, Reggio Emilia, Tradicional, Construtivista), é necessário saber como a metodologia adotada dialoga com a diversidade e a realidade brasileiras.

Toda escola, pública ou particular, é obrigada a ter um projeto político-pedagógico, então é importante saber:

  1. Como a escola tem aplicado a LDB nas questões étnico-raciais?
  2. Foi realizado curso de formação para os professores? Ninguém ensina o que não sabe; cursos de formação nesta área são de extrema importância.
  3. Quais práticas a escola tem desenvolvido para ser reconhecida como uma instituição antirracista?

Caso a escola não apresente nenhuma ação concreta, além de cobrar o cumprimento da LDB, os pais podem sugerir algumas ações.

  1. Curso de formação para os professores: há diversas instituições que realizam cursos, muitas vezes gratuitos. Além disso, há especialistas no assunto que podem ministrar esses cursos no interior das escolas.
  2. No site: http://100meninasnegras.com há uma lista bem diversificada de livros infantis com protagonistas negros e negras. Vale a pena consultar.
  3. “Nada sobre nós, sem nós.” Não há como falar da cultura afro-brasileira sem procurar referências nos autores e autoras negras, e há muitos, só precisam de visibilidade.
  4. Contratação de professoras/es negras: Representatividade importa sim. Uma criança negra enxergar-se em um(a) professor(a) contribui muito para sua autoestima. Ademais, estudos comprovam que promover a diversidade na empresa é produtivo e, em muitos casos, indutor da inovação: “É uma equação tão simples quanto efetiva: culturas diferentes + trajetórias diferentes + visões de mundo diferentes em uma equipe resultam em uma probabilidade maior de encontrar soluções diversas e criativas para a empresa.” (reportagem completa em:  https://epocanegocios.globo.com/Empresa/noticia/2017/09/por-mais-inovacao-e-produtividade-grandes-empresas-promovem-diversidade.html).
  5. Contar a verdadeira história de África e dos filhos da diáspora africana: é necessário mudar a forma como os africanos escravizados são retratados nos livros de história e mostrar aos alunos a contribuição dos negros em diversas áreas (saúde, tecnologia, ciências, artes….). Há um livro excelente sobre o tema que se chama “GÊNIOS DA HUMANIDADE – CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO AFRICANA E AFRODESCENTE”, de autoria do historiador Carlos Eduardo Machado.
  6. Peças teatrais e visitas a museus também são formas de colocar os alunos em contato com a cultura afro-brasileira de maneira positiva. Em São Paulo, destaque para o Museu Afro-Brasil, localizado no Parque do Ibirapuera.

Considerações Finais

Uma boa escola se constrói com a participação efetiva dos pais, e nessa equação “escola + família” todos têm a ganhar, mas “cada um no seu quadrado”. Os familiares podem levar os questionamentos e as proposições contidas neste manual, porém a escola não pode se eximir de sua responsabilidade; cabe a ela cumprir a lei, ou seja, trabalhar e realizar um projeto político-pedagógico que realmente promova a igualdade racial no ambiente escolar.

Sobre Elas:

Nanda e Inaê

 

 

Nanda de Oliveira, bacharel em Direito, Consultora Capilar na empresa Deixa a Madeixa, produtora de conteúdo do instablog Corredoras Cacheadas, mulher preta e mãe da Inaê.

 

 

 

19145712_1733314883349915_8985652840757349923_nClélia Rosa, pedagoga e mestre em Educação. O principal eixo do seu trabalho engloba a infância nos seguintes temas: educação infantil, culturas infantis, formação de professores/as e metodologias de promoção da igualdade racial desde a pequena infância. Mãe da Eloísa e da Aisha e uma incansável defensora das crianças para que tenham uma infância livre de racismo.

 

Referências bibliográficas

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Para educar crianças feministas: um manifesto / Chimamanda Ngozi Adichie; tradução Denise Bottmann. — 1a ed. — São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

MACHADO, Carlos Eduardo Dias. Gênios da Humanidade: Ciência, Tecnologia e Inovação Africana e Afrodescendente / Carlos Eduardo Dias Machado e Alexandra Baldeh Loras. São Paulo: DBA Artes Gráficas, 2017.

 

Percalços de uma maternidade dividida em cores.

Eu não sei se este texto vai ser do seu interesse, porque é uma Mãe Preta que escreve. Eu não sei se você irá ler até o final, porque neste exato momento já está dizendo que “é mi mi mi”. Nem eu sei se continuo este texto, porque ninguém quer nos ouvir… Até eu duvidei da minha pessoa, desacreditei, desconfiei, indaguei e não insisti…

Mas, pera, não dá, por mais que vocês não vejam, eu vou falar, preciso falar… Falar que nós não somos vistas, que nossas dores não importam, ou que nossa condição de maternidade é a pior . Seguimos com a ideia de que nossos filhos são só mais um no mundo, consequência de não se prevenir na hora de “trepar”, isso mesmo trepar… Ou você acha que o doutor do SUS fala diferente quando anunciamos o desconforto com a dor da dilatação…. “Gostou de trepar sem se previnir agora aguenta”.

A verdade é que vocês nunca irão enxergar a nossa realidade, porque não é a de vocẽs, ou mesmo, porque não se importam. Uma mulher branca parindo e indo pra casa no mesmo dia vira notícia, e exploram esta notícia como se fosse algo extraordinário. Agora, me diz aí, qual de vocês que possuem mais velhos, avós ou mães mesmo que já contaram um história de parto?  Tipo, eu escutei da minha avó que ela pariu meu tio mais novo numa estação de trem e no outro dia voltara pro trabalho porque não podia faltar, era lavadeira do hospital HCE. Agora, pare, pense… Quantas histórias??? Isso é novidade para nós? EU POSSO DIZER QUE NÃO! Parir é uma condição natural feminina, e ainda digo mais, nós não parimos somente nossas crias… Parimos sonhos e corremos atrás deles, os realizamos…  O sistema diz que não, a própria mídia social, esta, para qual eu escrevo agora, vai dizer que não, meu texto vai ser invalidado, porque eu sou negra, pobre e mãe, não conheço essa tal realidade… Claro, e nunca quero conhecer, porque essa não é a minha realidade… À realidade das minhas irmãs, que deixa o filho sozinho em casa para cuidar do filho da madame.  Eu acho super legal e necessário, nós criarmos as nossas crias, mas não podemos, porque …. Porque? Me digam o porque irmãs??? Porque somos apagadas… Nós não parimos, colocamos filhos no mundo, esta é a visão que o sistema tem de nós. Invalidam nosso discurso, nos sabotam e nos deixam ali na vala, pra morrer .  Agora, eu queria mesmo estar na mente de alguns daí de fora, pra ver como que elas encaram a nossa voz, que por enquanto é pequena… Mas grita, defende e apoia.

Eu, certa vez, estava em uma conversa, com mães mesmo, que estavam ressaltando a vida dos jovens negros, que estão saindo das universidades. mas continuam desempregados  leia aqui e aqui .

È um recado, se bem que me entendem, quando eu me dei conta, eu rapidamente pensei: – O que será das minhas filhas??? Pensa comigo: – To eu e meu Rei aqui, trabalhando que nem uma condenada, pago de tudo, e faço de tudo para dar uma boa educação para minhas filhas, para que elas possam ter um futuro melhor….. A esperança das nossas mães e avós era a educação, mas e agora?  Mesmo com educação, nós estamos de fora?

A verdade é que a nossa demanda precisa urgentemente estar em pauta, e não vem dizer que mulher negra é a mesma coisa que mãe, que não é, há uma hora em que os caminhos se dividem, e nós precisamos ser acolhidas, respeitadas, humanizar-nos é preciso irmãs. Mas primeiramente entre nós, pra após ir pra fora.

Não é difícil compreender o porque as mídias sociais negras  lutam para permanecer de pé… È muita sabotagem, principalmente do nosso povo.

Nossas demandas são diferentes, exigem respeito, voz e cuidado… Mas principalmente união. Muitas já narturalizaram a maternidade como fardo, ou só mais um filho ou mais um filho! Assim, como naturalizaram o trabalho como fonte de renda e só.  Nós precisamos dizer não para muitas coisas inclusive para nós mesmas na maioria das vezes não é?

Como eu disse mais cedo, não tem fórmula, mas pode sim, ter muito apoio, troca e conclusão.

 

Agradeço imensamente por ter chego até aqui… Obrigada , você!

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Carl Cavallieri Mulher, Rainha do Samuel, Mãe de Três meninas, apaixoada pela maternagem, Historiadora, Idealizadora do Projeto Nana-Maternidade Preta, Alquimista e Fundadora da IMANi – Saboaria Artesanal .

Imagem destacada: Unsplash.com

A BLOGSFERA MATERNA SE SILENCIOU…

Por Mayara Assunção

Há alguns dias foi publicado o vídeo com a participação da Taís Araújo, no evento Tedx São Paulo. Com o título “Como criar crianças doces num país ácido”, ela conta dos desafios de se criar crianças Negras em um país estruturalmente racista. De pronto, a internet não perdoou. Inúmeros memes, charges e piadas foram feitas com trechos das falas de Taís.

Acontece que a Taís não expôs nenhum fato novo. O que ela disse ali, soa completamente comum e rotineiro para as Mães de Crianças Negras. O único fato novo é que ela falava para pessoas Brancas. E como sempre, as pessoas Brancas não querem abrir mão dos seus privilégios. Não querem ouvir. Minimizar a dor alheia, diminuir as falas de uma mãe é muito mais fácil que mostrar empatia. E, não seria diferente:  A BLOGSFERA MATERNA SILENCIOU.

Não se viu hashtag de apoio, não se viu textos que defendam não só aquela Mãe Negra, mas a CRIANÇA NEGRA da exposição. Não se viu nenhuma reflexão que tire a pessoa do local privilegiado dela. Maternas Feministas falam sempre de bem-estar, falam de melhorias para as crianças, falam do Universo Infantil, mas a verdade é que as lutas não vão além de nenhuma melhoria que esteja fora do seu círculo e da sua proteção.

Não é novidade para ninguém que o Brasil é um País Racista. Que crianças Negras (e principalmente MENINOS NEGROS) não são vistos como as crianças Brancas. Que a liberdade de uma criança no Brasil é sim, determinada pela cor da sua pele.

O que me preocupa não é quando os dados são apontados. O que me preocupa é que MÃES E FAMÍLIAS BRANCAS não chamem para si a responsabilidade de ter o cuidado e esse olhar empático com as Mães, Famílias e Crianças Negras. Me preocupa que nessa onda por uma Maternagem cada vez mais Humana, a questão racial esteja ficando de fora.

É Humano para quem? Maternar é para quem? Exercer uma maternidade ativa e responsável é mesmo fechar os olhos para as falas de Mães Negras? Estamos lutando por toda igualdade, menos quando ela é Racial?
Quando o assunto é o Universo Infantil, as pessoas Negras tem que parar de pegar pessoas Brancas pelas mãos e dizer o que é racismo. Parar de contar a historinha bonitinha que te agrada para ilustrar a nossa dor e não ser tão ríspido. Temos que parar de ser gentil e fazer a boa vizinhança. Ou vamos todos construir uma MATERNAGEM real ou não teremos avanços.

Não são as Mães de crianças Negras que precisam ter empatia e cuidado nos espaços de falas feministas. É você, Mãe de criança Branca, que pratica racismo com os nosso filhos que tem que rever seus espaços, privilégios e seus conceitos.

O silêncio de vocês só confirma a sátira, o silêncio de vocês só enfatiza e mostra a real preocupação de todas vocês!

A verdade é que não há preocupação alguma, ou até há, a preocupação se a maternância negra alcançará a mesma importância que a maternância branca possui, a verdade é que nenhum espaço materno branco se preocupou com o acontecido porque não se preocupam com a vida das nossas crianças ou o quanto os seus filhos serão ou são racistas.

A MATERNÂNCIA NEGRA NÃO  SE SILENCIARÁ DIANTE DE RACISMO!!!
Quer ler mais sobre a questão racial?  

Meninas Negras, “Até a última menina. Livres para viver, livres para aprender, livres de perigo”

 

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Mayara Assunção Filha da Dona Rita. É militante do Coletivo Kianda, Brincante de Cultura Popular, integrante do Bloco Afropercussivo Zumbiido e Mãe do Adriano.

Mas e a criança negra?

Por Mayara Assunção

Atualmente, as informações chegam em ritmo acelerado para nós: racismo, genocídio, militância, negritude, violência e tantas outras. Estamos nos tornando especialistas em muitas coisas e, ao mesmo tempo, não somos especialistas  em nada. Mas e a criança negra?

Sabemos prontamente os dados sobre as “mortes pela polícia”,  a quantidade de “ração” que será distribuída pela nova gestão, os bonecos que não estão nas prateleiras, os modelos que não estão na televisão. Mas e a criança negra?

Falamos da “solidão das mulheres”, das “ausências dos homens”, das “sobrecargas das avós”, das “não-obrigações dos tios e amigos”, da “escassez de políticas do sistema”, das “faltas de vagas” na educação/saúde/transporte, falamos de tudo. Absolutamente de tudo. Das dores e dos amores, das comidas e das bebidas. Mas e a criança negra?
E a criança negra?
E o nosso olhar para a criança negra?

Nossos olhares, nossos zelos e nossas lutas reais pela criança negra?
Bom, a grande verdade é que não olhamos (ou pouco olhamos) para as crianças negras. Crianças negras estão sendo invisibilizadas e desprotegidas há muito tempo. Inclusive inconscientemente por nós, militantes, e nos espaços de militância.
Se defendemos e lutamos por políticas antirracismo para os nossos jovens, devemos imediatamente começar a entender as estruturas e preservar as crianças negras ainda na primeira infância.

Não se trata só de falar em acolher mães e crianças negras e deixá-las de canto com meia dúzia de giz de cera à disposição.

Estar, lidar e tratar com crianças, ainda na primeira infância, é muito mais do que separar sulfites e lápis de cor. É olhar para aquela criança como ser em formação, com ternura, como indivíduo. Brincar com atenção, com tempo, envolvimento e cuidado.

Dias atrás, uma amiga desabafou sobre a final de um Slam de SP que ela foi acompanhar (o único que acolhe crianças e mães, inclusive) no qual as pessoas não tinham nenhum respeito com as crianças. Que contraditório lutarmos por dignidade e respeito não exercendo isso com crianças, não é?
Segundo dados da Anistia Internacional, em 2012, 56 mil pessoas foram assassinadas no Brasil. Destas, 30 mil são jovens entre 15 a 29 anos e, desse total, 77% são negros. A maioria dos homicídios é praticado por armas de fogo, e menos de 8% dos casos chegam a ser julgados.”
É claro que estes dados apontam números altíssimos e preocupantes, mas também apontam o nosso olhar para uma parcela de indivíduos que nunca antes foram notados, até virarem estatística. Por que tratamos nossas crianças negras com tanta indiferença durante a primeira infância? Ou melhor, a pergunta deveria ser: “Por que as crianças negras não são vistas como as crianças brancas no Brasil?”.
As crianças negras são vistas desde pequenas como “vítimas do sistema” e como fonte de ”mão de obra”, elas não são vistas como a criança que deveria estar brincando e sendo cuidada.
Recentemente, eu estava andando com algumas amigas no centro de São Paulo e um garoto de rua chegou bem perto de nós. Ele (e elas) se surpreenderam quando perguntei sobre ele estar descalço naquele frio. Ora, eu sei de todas as faltas de políticas e o motivo de ele estar descalço na chuva, mas me espanta que esta criança seja sempre vista como alguém que vai pedir esmola. Ele é criança, então vou primeiro pensar no bem-estar e saúde dele e tratá-lo como criança.

Crianças negras também são vistas como mais fortes e mais “duras” em situações rotineiras, como no ato de pentear os cabelos. As crianças pequenas são submetidas a inúmeros “estica e puxa” para moldar os cabelos crespos, e muitas vezes, sob choro. E é comum ouvir “seja forte, não chore”. Mas por que motivo expomos nossas crianças à dor e pedimos que elas sejam fortes, se o correto seria acolher e oferecer proteção?

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Em situações cotidianas também temos um tratamento diferenciado, como em festas de aniversário. A criança branca, por mais simples que seja, sempre terá comemoração. A criança negra, não. E não estou falando de festas volumosas e grandiosas. Mas comecei a perceber nos círculos de que participo que, por exemplo, a criança branca pequena tem quase todos os convidados presentes nos seus aniversários. As crianças negras, não. É como se para a criança negra, não fosse naturalizado esse direito e esse hábito à felicidade e às comemorações.

Eu tenho uma grande amiga negra que trabalha com festas e que nunca faz festas para os próprios filhos. É natural para ela, que os filhos também negros, irão entender essa ausência de comemoração. Essa ausência da Mãe. Não é a festa em si, mas o fato de comemorar, de estar feliz. Crianças negras não têm esse olhar voltado a elas. Não tem o direito à felicidade, a brincar e a cuidados.

Não por acaso, segundo a Rede Peteca, o estudo do Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (FNPETI) apontou em 2013 que das 3,187 milhões de crianças em situação de trabalho infantil, 1,99 milhão são negras. Porque enquanto essa criança for vista como um ser que “só serve para mão de obra”, dados como este existirão.
Uma simples pesquisa na internet sobre “crianças negras e crianças brancas”  pode revelar matérias como:

E é claro que todos esses dados, todas estas pesquisas estão diretamente ligadas à invisibilidade de crianças negras ainda na primeira infância. É ir além de ver nossas crianças só quando elas crescerem, ou de projetar expectativas no futuro “bandido” ou na próxima “doméstica”. É justamente tirar estereótipos de um ser tão pequeno e levar ele além da nossa zona de conforto e do nosso olhar habitual. Se somos espelhos dessas crianças, devemos ter cuidado, atenção e preocupação com a imagem que estamos refletindo.

E se  “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”, como diz o provérbio africano, então precisamos que toda a aldeia e toda a população brasileira revejam o olhar para com as crianças negras e, acima disso, revejam as práticas e mudem as ações, contemplando e acolhendo crianças negras desde a primeira infância.

Fotos: Mayara Potenza
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 Mayara Assunção é Filha da Dona Rita. É militante do Coletivo Kianda, Brincante de Cultura Popular, integrante do Bloco Afropercussivo Zumbiido e Mãe do Adriano.

A chegada de Kalel

Relato de Parto

  Por Luciana Carla Ferreira

Um parto não é apenas um nascimento. Para uma família este é um momento intenso, cheio de emoção, expectativa e sonhos. Para nós esta segunda gestação não era diferente. O sonho de um parto respeitoso era intenso e latente em nós. Sonhávamos com um parto respeitoso, que para nós seria um parto duplo do passado e presente.

Desde o finalzinho da gravidez estávamos em ritmo intenso, nos preparando para a chegada do nosso menino já no carnaval. Eu estaria entre 37 e 38 semanas e meu coração me dizia desde a 20ª semana de gestação que ele chegaria entre dia 24 de fevereiro e 4 de março. Conversei com o André meu esposo sobre isto, a Janie nossa doula. Combinamos com a nossa amiga Jackie que ficaria com a Giulia, caso o Kalel chegasse antes, pois a data prevista era 17 de março. Se minha mãe não conseguisse chegar a tempo a Jackie estaria disposta a nos ajudar.

A chegada do segundo filho é complexa, existe uma demanda, a gente se preocupa com o primeiro filho, já que eles não podem estar com a gente na hora do parto, em um parto hospitalar. Meu parto necessariamente deveria ser num hospital, pois no primeiro parto sofri violência obstétrica e como consequência tive uma hemorragia. Um parto domiciliar seria arriscado.

Tudo organizado com 36 semanas, malas prontas, documentos separados, casa abastecida. Minha mãe chegou para ficar com a Giulia. Conversei com o Kalel “filho está tudo pronto para sua chegada! Pode vir” E o garoto ouviu, rs

Como o meu coração intuía no dia 24/02 acordei com cólicas, dores nas costas. Já tínhamos estudado nos encontros com a Janie (e que aula) toda a fisiologia do trabalho de parto e os processos. Agora eu entendia o que estava acontecendo com meu corpo. Ele foi me dizendo dia a dia que meu bebê estava chegando. Paciência apenas paciência. A cada dia eu avisava a minha médica dra Andrea Campos, Janie e a Priscila (nossa obstetriz Márcia estava viajando e a Priscila ficou em seu lugar) da evolução do processo.

As dores duraram apenas a madrugada do dia 24. Amanheceu e tudo parou. Passamos o carnaval em calmaria. No dia 01/03 as dores voltaram perto da hora do almoço. Como eu tinha consulta as 16h, liguei na Casa Moara, pedi para antecipar a consulta com a dra Andrea. Chegando perto do consultório as dores pararam. Não senti mais nada. Na consulta pouco mais 2cm de dilatação. O corpo trabalhava…fomos fazer alguns exames e depois voltamos para casa. Ainda não era hora.

Às 2h da madrugada as dores voltaram. Agora contrações a cada 12m. Ligamos pra Janie por volta das 5h que preferiu me ver. Impressionante, mas novamente, o trabalho parou. Quando a Janie entrou no quarto, eu ali com a luz baixa, deitada de lado a melhor posição, senti a última contração, meu corpo relaxou, eu dormi. A Janie ficou ali do meu lado por algumas horas. E combinamos de que se voltasse as contrações ela voltaria.

Passamos o dia bem. Eu estava em processo fiquei no quarto o tempo todo, no escuro, deitada de lado. Me alimentei, estava perto da minha família (muito importante). Estava confortável! Minha filhota por ali, percebendo tudo, parece que ela sabia o que estava acontecendo. A noite a Priscila foi me ver por volta das 21h. Verificou como eu estava e como evoluía o trabalho de parto. Neste momento eu estava bem apenas com dores nas costas, porém sem contrações. Quando iniciavam vinham de 10 em 10 minutos (12 em 12) e era necessário que o tempo ficasse menor. Pelo menos, 2 contrações a cada 5minutos. Eu estava apenas com 4 cm e meio de dilatação e teria que aguardar ritmar as contrações. A Priscila voltou para casa. No segundo bebê este tempo pode ser de horas ou dias. Não tem como saber, apenas respeitar o corpo, a decisão do bebê e esperar o tempo certo. Era o que estávamos fazendo, com muita paciência e segurança na nossa equipe que era maravilhosa e estava atenta.

Por volta das 22h30 as contrações voltaram, minha filha e minha mãe dormiam. A casa em silêncio. Estávamos no quarto, o André começou anotar as contrações, o tempo e duração. Na hora o cansaço e com a dor a gente sai do ar e começamos a entrar na Partolândia. Esta conexão com nosso corpo, com o bebê é importante. Eu sabia que a dor neste momento era necessária e que a cada contração o Kalel estava mais perto. Por volta das 2h da manhã as dores mudaram. Eu senti uma vontade imensa de urinar e não conseguia. Entrei no chuveiro enquanto o André ligou pra Priscila. As dores neste momento mudaram. Ficaram mais intensas. No chuveiro as contrações vinham a cada 3 minutos. A Priscila chegou rápido em casa. Fez o toque eu estava com 7 e meio de dilatação. Era hora de ir para o hospital. Pegamos as malas, acordei minha mãe, que me abençoou antes de sairmos. O trajeto no carro foi o pior momento, as dores intensificaram e as contrações vinham de minuto a minuto. Não tinha uma posição que aliviasse eu apenas desejava chegar logo no hospital.

Ao chegar no hospital as dores pararam, eu não sentia mais nada. Encontramos a Janie e a Lela nossa amiga e fotografa na entrada do Samaritano. Chegamos juntos a entrada foi rápida. Logo fui para o consultório, para os primeiros procedimentos, a Dra Andrea chegou neste momento, me examinou e dilatação total, bebê bem posicionado, verificaram os batimentos do bebê. Tudo perfeito!!! Hora de correr para o cento cirúrgico, onde ocorreria o meu parto, pois o Hospital Samaritano não possui uma sala de parto.

Eu ouvia as vozes de longe, eu estava conectada com o Kalel, com Deus estava totalmente na Partolândia…

Esperei todos chegarem a equipe chegou primeiro. O André em seguida. A dra. Andrea me perguntou se eu sentia vontade de fazer força, mas eu estava tranquila. Apenas sentia uma onda que vinha na minha barriga. Quando as ondas vinham eu fazia força. Na segunda vez a bolsa estourou. A Janie foi muito importante neste momento, ao meu lado sussurrava no meu ouvido, que eu iria conseguir, que meu bebê estava chegando. Me deu água, secou meu suor, usou o leque para abanar, segurou minha mão. Colocou uma música suave e um perfume que me lembro que quando senti a sala toda tinha aquele cheiro. Eu ouvia as vozes de longe, eu estava conectada com o Kalel, com Deus estava totalmente na Partolândia. Fechei os olhos e a cada vez que sentia a hora exata de fazer força eu sentia meu bebê descendo e chegando. Até ouvir a voz da dra Andrea dizendo que o bebê estava coroando e mais uma força o Kalel chegou.

Foi o melhor momento de todo este processo. Peguei meu bebê no colo. Um choro de alivio e dever cumprido. Meu filho estava ali, nos meus braços, saudável, bem. Toda a equipe em silêncio contemplando este momento. Eu e o André nos abraçamos com nosso filho. Choramos juntos. André cortou o cordão umbilical quando parou de pulsar totalmente. Nascemos no parto da Giulia e Renascemos no parto do Kalel.

Todo o procedimento feito em nosso filho foi enquanto eu amamentava. Ele ficou no meu peito mais de 1 hora mamando, me olhando. Olhando o pai. Fizemos apenas os procedimentos necessários, pesar, medir, André acompanhou o bebê o tempo todo, ele ficou com o pai e foram para o quarto. Eu cheguei logo em seguida. Não fui picada, não tive acesso, nada absolutamente nada. Era um parto!!! Apenas um parto.

O André foi buscar nossa filha Giulia e minha mãe para conhecerem o Kalel. A alegria da Giulia ao conhecer o irmão foi incrível e emocionante. Ter meus dois bebês no meu colo, me senti realizada. A vovó babando no primeiro netinho, depois de duas netas. Nosso bebê tomou banho apenas no dia seguinte, no balde nós demos o banho com a nossa pediatra dra Ana Paula e a Giulia ajudando cuidando do bebê. Escolhemos juntos com ela o que era realmente necessário para o nosso filho. Era um momento nosso, da nossa família. As vacinas foram dadas com o bebê no meu colo, amamentei em seguida. Fomos muito respeitados e cuidados. Ficamos no hospital apenas 48h para descansar e voltamos pra casa com nossos pequenos. De volta á vida!!!

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Créditos das Imagens:

Coletivo Buriti   

Fotógrafa:

Lela Beltrão

                                                                                                                         Sobre Luciana

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